Meia volta, volver

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Ao completar dezessete anos, foi orientado no trabalho.
 
- Precisa fazer alistamento no Tiro de Guerra.
 
Especulando colegas de serviço e de escola, achou a Junta Militar lá perto da Prefeitura. O rapaz atrás do balcão não levantou os olhos. Deixou o visitante esperando uns cinco minutos, depois foi lacônico.
 
- Precisa trazer dois retratos três por quatro e certidão de nascimento. O atendimento é das nove até as cinco horas da tarde.
 
Deu trabalho pra família. O pai foi até a rodoviária, mandou recado com o motorista da jardineira. Lá em Minas Gerais, o tio Iriçanga foi ao Cartório, tirou cópia do documento. O cobrador do ônibus entregou ao jovem, lá na Casa Higino Caleiro.
 
Nesse ínterim, tivera tempo de ouvir dezenas de histórias envolvendo sargentos e atiradores do Tiro de Guerra. Uma delas contava que o sargento Osni obrigara o Contini e o Juarez Fumaça, jogadores do Internacional, a tomarem, com cerveja, comprimidos pra bezerro, que eles quase morreram com dor de barriga.
 
Foi, pois, um jovem inseguro e trêmulo, munido de fotos e certidão de nascimento, que retornou à Junta Militar. O atendente, depois de algum tempo, mandou-o entrar numa sala, onde a voz neutra de uma farda e de um homem magro e alto ordenou-lhe que se sentasse.
 
O militar colocou impresso na máquina de escrever, começou a perguntar: nome, endereço, nome dos pais, profissão... O entrevistado já começava a readquirir o controle emocional quando veio a pergunta.
 
- Cor ?
 
- Moreno.
 
- Deixa de ser burro! Essa cor não existe. Não está vendo que você é preto?
 
Muitos anos e enfrentamentos depois, o ex-atirador voltou àquela repartição, porque a burocracia lhe exigia comprovação de que fora atirador do Tiro de Guerra. Assim que obteve cópia da Certidão de Alistamento Militar, correu os olhos pelo documento. O registro estava lá: cor: branca.
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 

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