O que nasce a cada manhã?

Por: Maria Luiza Salomão

Como seres do tempo, morremos para experiências vividas, lugares e amigos, cidades e complexos afetivos, projetos e circunstâncias fugazes. E renascemos outros, na reconfiguração afetiva, outramos. 
 
Tendemos a falar pouco dos nascimentos, em vida. Os trinados que ouço são de novos passarinhos que se tornaram adultos, o sol estala de único e novo, ilumina a lembrança do ontem que me fez nascer outra, agora.
 
Duas vezes morei em Franca e são duas Francas. A primeira Franca tinha um terço da população de agora, e casas lindas que não existem mais, assim como mudaram as ruas que eu trilhava; cidade que palmilhava a pé, em monótona rotina: escola, Clube dos Bagres com amigos, depois brincadeiras dançantes, Cinema, São Luís, Odeon, Avenida. A segunda Franca é variada: trabalho, filmes, leituras e escritas todos os dias, amigos marcantes em curtos e intensos momentos, filhos que vão e vêm. 
 
Amigos dispersos da primeira Franca, que nunca mais vi. Não há controle sobre o que morre ou sobrevive no mundo de fora, nem no de dentro. É possível apenas acolher o que, à revelia, sobrevive: a lembrança. 
 
Quero reencontrar o amigo da primeira Franca, que está hoje em Araraquara. Lembrança: ele muito alto e magro, irmãos até na cor ‘jambo’, sorriso branco e fácil, largo, pronto para uma sonora gargalhada. Éramos da turma do fundão, meio ‘vagal’, divertida e antenada à vida. Eu era também ‘nerd’, se houvesse esse termo na época. Nada se comparava à alegre troca de experiências, ao concerto das risadas, à cumplicidade de ágeis instantes, no fundão. Sua lembrança é como um bebê que se me nasce na multi-alma, que faz nascerem origens, mais do que histórias, porque lembrança não é passado arquivado, são carne e sangue consagrados. Eu era jovem demais, apressada em viver o futuro, como saber que estava me inventando, naquele alegre convívio? 
 
Olho no olho da Esfinge edipiana que me habita, mítica, e que me demanda: ‘Que criatura pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois, e à tarde tem três?’ Não entro no círculo vicioso de morte em etapas: quatro, dois, três pés - passado, presente, futuro. 
 
A lembrança não é nem passado nem futuro. A lembrança é o meu presente, respondo à Esfinge, pois quando a lembrança nasce, como a do meu amigo, sem licença, é para se me dar à luz, eu-mesma e eu-outra nascendo a cada manhã.
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)

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