Tchau

Por: Izabel Fogaça

Eu tinha seis anos, meus pais se separaram. Eu não chorei porque ele estava indo embora, ou porque sabia de alguma forma que nossa vida mudaria significativamente, eu chorei porque ele foi sem falar “tchau”.
 
Quando eu tinha oito, eu não me relacionava muito bem com uma psicóloga que trabalhava com minha mãe, ela sempre me mandava colocar sapatos, ou me reprimia na aula de crochê. Às vezes eu subia na mureta de casa pra sondar o que ela estava fazendo, quase sempre estava lendo um livro, ou coando o café. Quando ela foi embora, por algum motivo, eu reprimi o choro perto das pessoas que me deram a notícia, depois subi no alto da mureta e chorei feito um bebê. Um dia depois, saí na cidade recolhendo assinaturas num abaixo assinado, praticamente ordenando que a psicóloga voltasse. Ela também foi sem falar “tchau”.
 
Quando fiz dezesseis, minha tia morreu de câncer. Minha mãe ligava de semana em semana no hospital, eu assistia tudo ansiosa, mas eu tinha vergonha de pedir pra falar. Ela também se foi sem falar “tchau”.
 
Com dezenove anos entrei na faculdade, eu não conhecia a cidade destino, só sabia que era muito longe, meus pais não queriam que eu fosse, mas de uma forma surpreendente todas minhas coisas couberam em uma única mala e aquilo era encantador de uma forma que eu apenas quis ir. Estava chovendo à beça, minha mãe me levou até a rodoviária, parou o carro meio longe, e ficamos um tempo quietas observando as gotas de chuva caírem. Abri a porta, retirei a mala como se fosse a coisa mais leve do mundo. No fundo do coração eu queria chorar, mas reprimi. Minha mãe me abraçou tão forte que eu senti o cheiro quente do casaco no meu nariz, de uma maneira aconchegante. Então, ela disse “Tchau filha, vá com Deus e o anjo da guarda.” Eu não respondi.
 
Dentro do ônibus pensei na minha vida inteira, tentei não ficar triste, afinal eu estava prestes a realizar o maior sonho da minha vida, um sonho que era só meu. Cheguei, pedi ao taxista que me deixasse em algum lugar barato pra tomar um banho e dormir. Acabei batendo numa pensão às 3h00 da manhã, uma moça desceu de pijama, e de forma pouco simpática me apresentou um quarto inteiramente branco com uma mesa de madeira e uma cama mal arrumada “Esse é seu quarto” e segundos depois fechou a porta. Fiquei pensando na minha mãe, peguei o celular e não funcionava, então peguei o computador e a internet não conectava. Chorei demais. 
 
Eu só queria falar “tchau mãe, vou ficar bem”.
 
E então, entendi a complexidade de falar “tchau”.
 
Izabel Fogaça, 4º ano  História/Unesp

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