Boas notícias

Por: Everton de Paula

Ocasionalmente, divirto-me com a idéia de que todo jornal responsável deveria ter um editor tomando conta apenas das boas notícias. Não falo de coisas tolas, de estilo frívolo, mas de fatos reais, verdadeiros, acerca dos feitos e atos decentes do povo, os quais ficam sepultados sob a torrente diária de desgraças.
 
Não me refiro tampouco às homenagens que cronistas sociais exercitam. Digo de um caderno destinado apenas às boas notícias que ocorrem amiudamente no centro da cidade, nos bairros, na periferia.
 
Imagino alguns exemplos: “Na última segunda-feira, no interior do Banco..., quando a fila de correntistas se estendia até às ruas, diante de apenas dois caixas terrivelmente lentos, o gerente responsável pelo setor designou doze outros funcionários para que todos os caixas estivessem em funcionamento, recomendando-lhes rapidez, eficiência e sorriso no atendimento. Prontamente, gerente e funcionários receberam calorosas palmas de todos os clientes que ali se encontravam. E a manhã de segunda-feira seguiu ensolarada e maravilhosa.”
 
Haveria jogada mais acertada de marketing bancário que esta?
 
Viramos a página e lemos em seguida: “Ontem, pela manhã, o sr. Hudson Prestes Silva, comerciante, 32 anos, após o café, despediu-se gentilmente de sua esposa e filhos, dirigiu-se à garagem, tirou dali seu carro, não sem antes cumprimentar o vizinho do lado, ajudando-o carregar a escada e dando sugestões quanto ao melhor meio de conservar bonitos os amores-perfeitos que enfeitavam o peitoril da janela assobradada.”
 
E assim, o editor-chefe do referido caderno instruiria seus repórteres a seguirem em busca de gentilezas no trânsito da cidade, cidadania frente ao patrimônio público, respeito devido aos idosos, mulheres e crianças em ônibus e filas públicas, o cuidado com o paisagismo e a limpeza de ruas e calçadas, os programas municipalizados de atendimento aos carentes, os investimentos públicos em treinamento e encaminhamento de desempregados...
 
E assim vai !
 
Imagino mais: Santos e Corinthians jogando na Vila Belmiro. Chega a torcida do Corinthians. Torcedores do Santos e toda sua diretoria vêm receber os Gaviões da Fiel no portão de entrada do estádio com faixas de boas-vindas e outros blá-blá-blás do tipo “vença quem for o melhor, mas continuemos a ser amigos nos esportes e pela vizinhança de nossas cidades.”
 
Em uma cidade como Franca, onde a convivência está cada vez mais difícil, adotar regras de civilidade melhoraria a sua vida e a dos outros. Então, o editor deste caderno do jornal publicaria algo sob o título “O grande guia das pequenas gentilezas”. Já pensou? Um guia que nos ensinasse a ser empáticos, a nos colocar no lugar do outro, a compartilhar as dificuldades do outro e minimizar, o quanto possível, as dificuldades do outro: ajudando um idoso a atravessar a rua, segurando uma criança de colo enquanto a mãe paga um carnê no caixa de banco, cumprimentando gentilmente, com um sorriso, as pessoas com quem cruzamos... 
 
Mas parece que os jornais insistem em estampar, logo na primeira página, os defeitos e as grandes perdas da civilização: assassinatos, desastres de trânsito, assaltos violentos, mortes estúpidas nas estradas, muito sangue e tristeza. Por isso leio primeiro a página de esportes: lá está, ao menos, registrada a vitória de um time, a alegria de uma torcida. Talvez aqui ganhem os cronistas sociais ao noticiarem gentilezas e flores, brindes e amores. Depois, muito depois leio, para me atualizar (afinal, continuo um animal social), as notícias políticas, as falcatruas, a violência urbana, a descortesia, o desrespeito à natureza...
 
Bem, ao menos sonho com a possibilidade de ver publicadas notícias sobre a bondade e gentileza cotidianas... Doce utopia que acaba na exata medida em que surge alguém querendo tirar vantagem sobre outros.
 
Everton de Paula, acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos
 

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