De bem com a vida

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

A vida no campo favorece a humanização das pessoas, tornando-as mais amistosas. Seus moradores preservam laços fortes de relacionamentos que ultrapassam gerações. São pródigos em criar tipos excêntricos, conhecidos em toda região e nos mais longínquos rincões. Suas histórias são levadas pelos viajantes, muleiros, andarilhos, parentes que se visitam, empregados, enfim, pela força das intrépidas palavras que atravessam montanhas, rios, cerrados e chegam modificadas, mas chegam, ao ouvinte distante, ansioso em saber as novidades. Foi assim que se espalhou a história do coronel Firminiano, nascido no inicio do século passado, bonachão, puro de caráter, casado com dona Feliciana que dizia ser a letra F o motivo de sua fama. Não havia forasteiro que não fosse recebido por ele. Famoso pela hospitalidade apregoava aos quatros ventos que em sua casa era o hóspede e que o visitante poderia se considerar o dono. Quando algum deles o procurava em sua fazenda, ia logo lhe perguntando as horas, para conferir com seu legítimo Roskoph, e autorizar a qualidade ou não do outro relógio, com base na exatidão que dizia ter o seu. Acomodados na varanda, ele chamava pelo nome o galo Feitiço que o obedecendo, rapidamente, pousava em seu grosso e forte braço, abria o bico e cantava lindamente para o deleite do coronel. Gostava de ir ao arraial conversar com os amigos em sua montaria predileta, a mula Filó, devidamente aparelhada com baixeiros coloridos e pelego sob a sua exclusiva sela de couro. Colocava no animal vários adereços como um vistoso peitoral de argolas de metal. Certa vez, tendo esquecido sua carteira, virou-se para o cachorro Fiel e batendo no bolso vazio mandou-o buscá-la. Este correu de volta à fazenda, segurou a saia da patroa e fez com que ela fosse ao quarto, ao lado da cama, pegar a carteira, prendendo-a em sua boca para, correndo, devolvê-la ao dono. Por estas e outras, o coronel Firminiano afirmava que tudo dele era melhor. Seu relógio, seu galo, sua mula, seu cão. A força vinda da letra F de seu nome lhe trazia, também, felicidade. Sempre vivera por lá, querido por todos, filho de pai rico e de espírito jocoso.
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora

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