Assombração (II) - A mensagem

Por: José Borges da Silva

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Era sábado à noitinha quando um grupo de cavaleiros seguia pelas margens estrada que liga as cidades de Claraval e Ibiraci, no Sul de Minas Gerais. A conversa animada oscilava entre as consequências que a abertura ao capital privado, anunciada pelo governo chinês, representava para o mercado calçadista do país, e as mudanças do Código Florestal Brasileiro. As duas novidades eram alvissareiras aos viajantes. A primeira acenava com uma melhora para suas empresas. A segunda indicava possibilidade de vitória na luta que vinham travando para construir ranchos de lazer às margens da represa de Rifaina. Ao vencerem um aclive, próximos da estradinha que dá acesso ao povoado da Porteira da Pedra, resolveram descansar. Vinham de Franca, de onde haviam partido pela manhã, e os animais começavam a demonstrar fadiga, apesar da longa pausa que fizeram em Claraval. Logo que apearam, em um dos platôs que compõe a paisagem da região surgiu uma luz verde forte, que chamou a atenção do grupo. Era de formato alongado e sua tonalidade variava do verde-esmeralda ao verde-claro, um quase amarelo. Além de mudar de tonalidade a luz se movia por sobre o platô. Alguém concluiu logo que se tratava de um OVNI, por algumas características básicas: surgira em local inacessível e estava a centenas de metros do solo do vale, pairando dezenas de outros acima do platô, sem produzir ruído. A velocidade com que se movia também era incompatível com as máquinas conhecidas. Claramente não se tratava dos canhões de laser que costumam focalizar nuvens nas cidades, porque faltava o facho típico daqueles artefatos. Mas muitos observaram que assombração também tem essas características.
 
No mesmo instante, a milhares de quilômetros dali, em órbita da Terra, um objeto intrigava a NASA e as principais agências espaciais do planeta. Intrigava porque emitia sinais de rádio em uma frequência pouco usual. Mas, em pouco tempo, e com a ajuda dos especialistas em interceptação e espionagem da comunicação eletrônica do governo americano, os sinais foram identificados como sendo um sistema de comunicação que transmitia desde a superfície da Terra para um satélite em órbita, que retransmitida mensagens para alguma civilização fora do Sistema Solar. Estranhamente a mensagem se dedicava a descrever cavaleiros em curso por uma estrada em algum ponto do planeta. A primeira preocupação da NASA foi certificar se de que não se tratava de uma transmissão entre diretores daquela série da televisão conhecida como Cowboy x Aliens. A segunda foi detectar o ponto de observação dos alienígenas na Terra. Logo descobriram que a mensagem partia do Brasil, o que levantou suspeita de ordem política, tendo em conta os recentes episódios da espionagem americana envolvendo a mandatária do país. Mas, finalmente a mensagem foi gravada e o seu conteúdo era, em resumo: “esse grupo aparentemente está no nível de desenvolvimento do resto da população... Mas é estranha e superficial a relação com os equinos, pois eles se afastam dos hospedeiros ocasionalmente... Todos mantêm o estado de consciência alterado, através de intoxicação alcoólica... Os motivos de tal comportamento devem ser estudados oportunamente... Acabamos de ser detectados!” 
 
Antes que os cientistas da NASA conseguissem uma única imagem o objeto já não era mais visto orbitando a Terra. Enquanto isso os cavaleiros já chegavam a Ibiraci, embriagados, falando de assombração com uma naturalidade pouco comum, com exceção de um que insistia que vira um OVNI pelo caminho. Nenhum deles foi levado a sério!
 
José Borges da Silva , procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras

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