Eu compro

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Uma vez eu afirmei que a História se repete, fui desmoralizado em reunião de partido político. Um dos companheiros afirmou que eu certamente jamais lera uma linha de Karl Marx. Menti:
 
- Realmente nunca li comentários sobre a obra do autor do Manifesto Comunista.
 
A Terra, meio bêbada, deu um monte de voltas sobre si mesma, um monte de voltas em torno do Sol que a feriu com setas de ozônio. E descobri, semanas atrás, que sempre desconheci O Capital e outras obras da humanidade e que continuo achando que a História se repete aqui e ali com a mesma cara e com as mesmas roupas.
 
Eu visitava parentes e amigos na cidade natal. A tia Biriba, como todas as tias fazem todos os dias, retirava bolo do forno de barro, retirava fornalha de pão-de-queijo, quando bateram à porta. Atendemos, e era um menino de sete, oito anos de idade, oferecendo:
 
- Qué comprá quitanda?
 
Não, a tia Biriba não queria, ninguém queria comprar quitanda.
 
O menino se virou com a cara tristonha e a bandeja cheia de coisas cobertas com uma toalha quase branca. Ele se encaminhava para a rua, e eu me via diante de Dona Sebastiana, minha mãe, há mais de cinqüenta anos, ali na Rua Cavalheiro Petraglia, na periferia da cidade. A mulher mandava-me, mais à Nininha, a irmã mais velha, sairmos à rua, vendermos molhos de alface, um frango. 
 
Acontece que, naquele tempo, as residências eram humildes, mas todas dotadas e quintal enorme. Assim, a quase totalidade dos moradores cultivava canteiros de alface e de batatinha salsa, e todos tinham um galinheiro lá nas divisas do fundo. Era quase impossível achar alguém interessado em comprar verdura, em comprar galinha.
 
Eu e a Nininha voltávamos cansados, levávamos puxões de orelha, tapas na cabeça, promessas de surras. O frango era devolvido ao galinheiro, e a alface murcha seria aproveitada no almoço e na janta.
 
O menino com a bandeja de quitandas fechava o portãozinho quando compreendi. 
 
Vender quitanda na cidadezinha é mais difícil que fora vender frango e verdura na periferia francana no século passado.
 
A compreensão impulsionou tudo.
 
Então, um menino saiu correndo pela rua atrás de outro menino e arrematou toda a bandeja de quitandas.
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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