O íntimo em nós

Por: Hélio França

Despertamos na madrugada eu e minha alma, perdemos o sono, fomos até a cozinha aliviar a sede e saímos para o quintal. O ar estava fresco porém seco, incompatível com o verão, embora o deste fevereiro, atípico e pobre de chuvas. Olhei para o alto. Sem nuvens, o firmamento mostrava centenas de pontos luminosos, uns mais outros menos, porém todos infinitamente distantes da minha compreensão de simples mortal. Entrei novamente para buscar uma blusa que nos agasalhasse e ficamos ali, eu e ela, a ouvir o silêncio. Não dissemos qualquer palavra audível, não trocamos ressentimentos e nem nos elogiamos, apenas compreendemos a necessidade de ficar em silêncio por ser esta a melhor maneira de haver uma reciprocidade na entrega dos segredos, dos sonhos e dos desejos, todos eles confessáveis, externados de modo simples, sem reservas, desprovidos de mentiras ou maquiagens. 
 
Assim ficamos por mais de uma hora, se bem que o tempo não contava, não fazia sentido. Nada de se sujeitar ao andar dos ponteiros de um relógio, mas ao caminhar do rastro de luz espargido pela resplandecência de uma lua cheia magnífica. Houve questionamentos sucintos entre nós, mesmo em silêncio, houve. Entre outros, indaguei por que razão a alma ficava mais sensível nesta fase da lua; seria pelo esplendor do astro totalmente iluminado ? Apesar da falta de resposta, circunstancial creio eu, contentei-me com a continuidade da serenidade, exequível e lógica para aquele momento íntimo. Não obstanteo silêncio da noite e do nosso diálogo sensitivo, a paz interior às vezes era marcada pelo compasso rítmico e prazeroso de um grilo ávido por seduzir a fêmea através do canto. Harmonioso até para um inseto que nunca frequentou qualquer escola de música. Ora, dirão alguns, ouvir grilos ! 
 
Retornei o olhar para o alto pensando como durante o dia o céu, por mais azul que esteja, parece tão pálido ante o contraste esfuziante do fundo negro com o dourado dos astros e estrelas. Senti a alma como que levitando, desprendendo-se do meu EU observador, em direção ao espaço. Deixei-a ir, flutuando leve, solta, desprendida das minhas reflexões e dúvidas, perguntas e respostas. Fiquei apenas com meu EU pensante, mudo. Despedi-me da noite, voltei para o interior da casa, deitei na cama e tive a percepção de que não estava só. Minha alma já havia retornado. Então adormecemos de mãos dadas... 
 
Hélio França, engenheiro e membro da Academia Francana de Letras

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