A reserva ecológica

Por: Maria Luiza Salomão

Para Solange Borini
 
Por volta dos dez anos de idade, fui desenvolvendo uma ideia que me custou alguns sacrifícios (e equivocados sofrimentos), mas, de qualquer forma, engendraram ricas experiências.
 
A ideia forte era a de que eu, mais do que aceitasse, tinha como obrigação aprender a conviver com pessoas diferentes de mim, em relação a tudo: criação familiar, religião, posição social, histórias de vida, filosofias de vida (ética, estética, arte). Mesmo em situações comezinhas, aprender a gostar de comidas, bebidas, ou de modos de vestir ou cortar o cabelo, que contrariassem o que, sensorialmente, me era familiar, agradável, meu. 
 
Nunca foi fácil colocar em prática a ideia, mas a recompensa era o alargamento do meu mundinho; era o filosofar empírico: eu me espantava com a variada exibição dos estilos de viver - e de sobreviver - das pessoas. 
 
Assim, talvez, tenha sedimentado o gosto por viajar e pela futura vocação: o ofício de psicanalista. Há invariantes nos seres humanos, mas também um manancial de hábitos, manias e trejeitos singulares. Há toda uma complexa história, um fausto arranjo sensacional naquilo que imediatamente atrai ou repele alguma pessoa. O que torna alguém fascinado, sexualmente, sua fantasia ou obsessão, é tecido em um patchwork de vivências que vão se entretecendo, consciente e inconscientemente, em uma padronagem única e idiossincrática. A composição pode parecer semelhante na comparação de um humano com outro. Mas os detalhes de cada recorte do patchwork pessoal têm formas e cores que comparecem em um e não no outro, etc..
 
Uma particular cena vivida desvelada é capaz de revelar a complexidade do caráter de uma pessoa, mais do que uma narrativa de vida inteira. 
 
Tenho uma reserva de alma, ecológica, e lá me recolho, depois de me aventurar fora dela. Vejo, sinto, ouço o mundão, e, no entanto, sempre existiu um cantão ecológico, e só agora o sei. 
 
Trafeguei por religiões, ideologias, entre classes socioeconômicas distintas. Costumava ir ao aeroporto ou à rodoviária, quando morava em São Paulo, para admirar os tipos humanos - um hobby - a contemplar os passantes, a humanidade em desfile.
 
Depois de tantas décadas, descobri que ficar na minha reserva ecológica, desfrutá-la com quem é comigo afim, somente acontece quando estou alegre: espiritualmente alegre. Em paz, quieta, surda e mudamente alegre.
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)

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