A irmandade Ekard Nam

Por: Everton de Paula

Eramos sete, todos meninos, moradores no mesmo quarteirão. O homem ainda não havia pisado na Lua, e nós sonhávamos com ela como a rainha dos mistérios nos quintais sombrios de noite alta. Brinquedos comuns eram para o tempo seco, claro, sol disposto jogos de botão, unha-na-mula, pião, banco imobiliário. Mas em noite de Lua cheia, não sei que coisa era aquela que nos fazia reunir, os sete, em fundo de quintal, sob a tênue luz azulada de lampião de carbureto, fugidia, fedida como enxofre do capeta.
 
Foi numa dessas noites que fundamos nosso clube secreto, a irmandade Ekard Nam. Pegamos um abacate, tiramos-lhe o caroço, cortamos ao meio e esculpimos com um canivete, na face lisa, as palavras EKARD NAM. Depois, forramos a lata vazia com algodão e o umedecemos com tinta Parker de caneta. Molhávamos a palavra secreta e a imprimíamos na palma da mão esquerda, como um carimbo. Havia o vigilante a quem chamávamos de coroinha. Trazia um espelhinho na mão. Pedia a mão esquerda e colocava o espelho frente a ela. E no espelho lia-se MAN DRAKE, de trás para frente. Pronto, a senha estava dada. O nome do famoso mágico das histórias em quadrinhos de então era nossa palavra de passe. Imagino hoje para que, se éramos apenas sete facilmente reconhecidos entre nós. Mas sem uma palavra de passe e desprezado um ritual desse, como manter a magia?
 
Alguém trouxe, numa das reuniões seguintes, um amuleto: tratava-se de um pequeno crucifixo de madeira, com o corpo em chumbo de Cristo agonizante. E enquanto as crianças normais brincavam nas calçadas e ruas desertas nas noites da Júlio Cardoso, insistíamos em nosso clube secreto, sem estatuto, sem objetivo, a não ser o de guardar segredo entre sete amigos. Sabe como é, não havia televisão, nem celular, nem computador, nem vídeo-game; somente a nossa imaginação... De realidade cotidiana, mesmo, apenas as lições de casa, do IETC, e o som roufenho da Rádio Nacional que encantava, com suas novelas irradiadas, as nossas mães cansadas de mais um dia estafante. Meu pai dava aulas de Ciências Físicas e Biológicas no Ateneu, do seu Garcia. E o quintal da casa de dona Olívia, esposa de Alfredo Henrique Costa, era um convite irrecusável para reuniões dessa natureza, iluminadas por lampiões, lanternas e um raio de luar infiltrando-se por entre as folhas da frondosa mangueira que nos acolhia.
 
1958 era o ano. A Velha morava sozinha numa casa assobradada, de esquina. Não tinha parentes, amigos, ninguém que a visitasse. Certa noite, sentados na sarjeta em frente a minha casa, sob a luz do poste, admirávamos nosso crucifixo e tentávamos adivinhar que relação poderia haver entre aquele objeto e a Semana Santa que se aproximava. Foi quando a Velha passou, viu o crucifixo, cobiçou-o e- zás! -, num movimento de gato tomou a pequena cruz de madeira de nossas mãos. Saiu gargalhando. Ficamos sem ação. A Velha estava louca e nossos pais já nos haviam dito para não mexer com ela. A Velha já estava louca.
 
Louca e morta depois de três dias. Ninguém soube a causa. Sucederam-se os triviais: os agentes fúnebres vieram com uns apetrechos dourados, o caixão de forro roxo, e lá ficou a velha, entre quatro velas acesas, na sala da própria casa, exposta para ninguém. Da rua, distinguíamos apenas o bruxulear da luz das velas. Veio o padre, disse alguma coisa em latim, vieram algumas beatas, choraram duas ou três lágrimas, rezaram. Foi quando resolvemos entrar, no momento de maior visitação. Nosso susto foi instantâneo quando vimos nosso crucifixo nas mãos pálidas e enrugadas da defunta. Alguma alma piedosa o teria colocado ali. Tentação. Esperamos esvaziar a sala. Com os olhos muito abertos e mil cuidados, colocamos o coroinha na porta da rua. Assobiaria se aproximasse alguém. Tiramos a sorte. O perdedor foi até o féretro, aproximou-se do cadáver, estendeu suas mãozinhas para o crucifixo e o tirou com certa facilidade, pois que estava apenas posta sobre as mãos inertes.
 
Estava ficando tarde. A noite e o grito de mãe nos chamavam para os lares.
 
Alguém apagou as velas com um sopro, fechou janelas e portas, logo depois que saímos do lugar. O enterro deu-se na manhã do dia seguinte. Ninguém percebeu nada.
 
Não me peçam mais detalhes.
 
Sei apenas que as reuniões ganharam um sinistro jeito diante daquele crucifixo que estivera depositado nas mãos mortas da Velha louca.
 
Aos poucos, à medida que se sucediam as fases lunares, nossas reuniões foram se tornando mais raras. Até se acabarem quando todos nós ingressamos no ginásio.
 
O crucifixo ficou comigo. Queria me desfazer daquele peso.
 
Achei melhor escondê-lo numa lata vazia de goiabada. Enterrei a lata, com a pequena cruz dentro, no fundo do quintal, ao pé da goiabeira.
 
Os sete cresceram e cada um tomou seu rumo.
 
Mudamos de casa.
 
Passou muito, muito tempo.
 
Voltei à casa. Ainda não a haviam demolido. Pedi educadamente aos moradores para visitar o quintal, com o esclarecimento de que ali passara minha infância e coisa e tal. Permitiram.
 
Fui ao local. Nada de goiabeira, nada de chão de terra. Apenas uma camada de cimento. Disse algumas palavras ocas, saudades, infância, sei lá o quê. Dei as costas e voltei para meu mundo de adulto.
 
Por onde andam meus seis colegas da irmandade? Sei apenas que dois deles, o Godofredo e o Tiãozinho Miranda, já morreram... Tão cedo! E os outros da irmandade Ekard Nam? A única prova que ainda trago comigo é o espelhinho.
 
É coisa de confessar pra padre?
 
Everton de Paula, acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos

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