Edifício Master: os interiores

Por: Sônia Machiavelli

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Foi em janeiro de 2002 que Eduardo Coutinho alugou um apartamento na Rua Domingos Ferreira, 125, a uma quadra da praia de Copacabana, bairro que já inspirou muitos artistas.Ali se instalou com sua equipe para gravar com moradores depoimentos para um documentário que se chamou Edifício Master. Responsável pela pesquisa e autora de um livro sobre o cineasta, Consuelo Lins diz que “no começo foi muito difícil, as pessoas estavam desconfiadas”. Mas, duas semanas depois o trabalho deslanchou, e em um mês já estavam concluídos mais de quarenta depoimentos, num universo de 500 moradores divididos em 276 conjugados, 23 em cada um dos 12 andares. Da meia centena, escolheram-se 37 histórias. Todas muito comoventes ao trazer para o espectador a aridez inerente às vidas que resistem em meio à solidão ou se estiolam entre paredes de concreto. 
 
É um filme sobre interiores. A única cena externa é a que nos introduz, junto com o diretor e sua equipe, no edifício de classe média baixa. São mostrados o portão gradeado e parte da fachada antes que a porta principal se abra para nos dar passagem. Paramos na portaria, seguimos por corredores, subimos e descemos em elevadores, entramos em salas e quartos mobiliados com gosto duvidoso. O foco principal são os moradores, mas o documentário expõe, em forma de clipes, a estrutura interna do prédio. Os corredores, as muitas portas e as câmeras de segurança como retinas auxiliares são mostrados em recortes de vídeo. Nosso olhar vai junto, na tentativa de desvelar mais que rostos e palavras; o objetivo audacioso é descortinar estados de alma. 
 
Temos ali Maria do Céu, cujos relatos incluem “coisas esquisitas arremessadas de janelas”. Susi, dançarina baiana recém-chegada do Japão. Lúcia, dividida entre os cuidados à mãe e a atenção à companheira. Regina, que um dia tentou se jogar da janela durante uma briga com o marido Carlos. Henrique, fã de Frank Sinatra que todas as tardes põe para tocar My Way. Paulo, ex- técnico de futebol agarrado às lembranças dos lugares do mundo por onde passou. Cristina, a jovem mãe solteira expulsa de casa aos 18 anos. Daniela, a moça que tem medo de gente, vive sozinha com três gatos e escreve poemas em inglês. Alessandra, surpreendente ao se assumir prostituta desde os 14 anos, confessar ser mentirosa, revelar que seu primeiro programa lhe rendeu “R$ 150! imagine, R$150! e gastei tudo com milha filha no Mc Donald”. A moradora mais antiga conta seu périplo de nômade pelos andares do edifício onde já habitou dezessete apartamentos.
 
Como estes,os outros 26 entrevistados, de forma mais ou menos breve, explicam as razões pelas quais estão ali. Uns odeiam o lugar; outros apenas o toleram; poucos fazem pequeno elogio que soa triste. Em cada relato há sempre algo do passado que vem à tona, mesmo que de forma muito sutil, num movimento que às vezes inclui o próprio prédio, na década anterior ao filme tido como palco de crimes e lugar onde se explorou a prostituição. Na recuperação do espaço foi importante a atuação do síndico Sérgio de Carvalho, na função desde 1997, data enfatizada no longa. Ele é mais um cronista do cotidiano do Master.
 
 O objetivo do cineasta, de manter-se como um receptor neutro, não interferindo nos fatos narrados, a não ser quando absolutamente necessário, confere ao filme o tom de veracidade que se buscou para recortar um ambiente de concreto onde pulsam existências humanas com suas características específicas e circunstâncias condicionadoras. Cada morador tem sua história diferenciada, que as vidraças cerradas, as portas fechadas e o portão gradeado não conseguiram aprisionar e são traduzidas em relatos marcados por risadas histéricas, olhares tímidos, vozes trêmulas, tiques nervosos, lágrimas furtivas, gestos contidos, um tanto de ansiedade e angústia que mudam de nível e intensidade mas parecem sempre presentes. A dificuldade em sair à rua, referida por muitos, parece ser mais um indício do medo de descortinar a intimidade. E a clausura auto-imposta em vários dos casos que ganham a tela pode ter mais que uma dimensão física; ela é também um estado de espírito do qual se poderia sair pela via da palavra. 
 
Ao expor o cotidiano dos moradores de forma objetiva, recortando-os dentro de seus apartamentos, sem trilha sonora, a não ser o bater de portas e o ruído do elevador, o diretor fez do edifício um microcosmo que retrata o modo de vida de vastos segmentos confinados nos limites opressivos dos prédios urbanos, onde as pessoas estão tão perto e ao mesmo tempo tão longe umas das outras, ilhadas em seus espaços físicos e, pior ainda, rapidamente ensimesmadas. 
 
Edifício Master incomoda.
 
 
O CINEASTA
 
EDUARDO COUTINHO. 
 
Abandonou o curso de direito aos 20 anos para estudar cinema. Em 1962 começou a filmar Cabra marcado para morrer, reconstituição do assassinato de um líder camponês. Com o golpe de 1964 as filmagens foram interrompidas pelos militares. Mas o trabalho seria retomado em 1980. É considerado um dos marcos do cinema brasileiro.
 
Sua carreira parecia seguir o caminho da ficção - O Homem que Comprou o Mundo (1968), Faustão (1971) -, mas em 1975 o cineasta passou a fazer parte da equipe do jornalístico Globo Repórter, da Rede Globo, e cruzou o país registrando histórias em 16 mm. Nascia ali o documentarista.
 
Após dez anos de televisão, abraçou de vez o cinema documental, inovando ao adotar o vídeo e não a película. Passou uns dias no Morro Santa Marta, Rio de Janeiro, e fez Santa Marta: Duas Semanas no Morro (1987) -, acompanhou a rotina dos catadores de um lixão em São Gonçalo - Boca de Lixo (1993) –, investigou diversas formas de fé – Santo Forte (1999) - e registrou os preparativos para o ano 2000 em uma favela  – Babilônia 2000. Morou no edifício que deu nome ao filme resenhado nesta página e colecionou prêmios nacionais e internacionais.
 
Produziu intensamente durante a última década de sua vida. Voltou-se para a política em Peões (2004) - premiado no Festival de Brasília -, inovou usando elenco misto de atrizes e não-atrizes em Jogo de Cena(2007), criticou a programação de TV em Um Dia na Vida (2010) e ouviu o canto de voluntários em As Canções (2011).
 
Em 2013 recebeu convite para fazer parte da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas e foi homenageado com uma retrospectiva na Mostra de Cinema de São Paulo.
 
Morreu no dia 1 de fevereiro, aos 80 anos, em casa, assassinado a facadas pelo próprio filho, que sofre de esquizofrenia.(SM)
 
Filme
Filme: Edifício  Master
Diretor: Eduardo Coutinho
Duração: 1h50 min
Gênero: Documentário
Nacionalidade: Brasil
Lançamento: 22 de novembro de 2002
 
Sonia Machiavelli, professora, jornalista, escritora

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