Bravíssimo

Por: Eny Miranda

241422
Quando menina, ouvia de mamãe histórias sobre cidades feitas de bolo, bala, chocolate... que me soavam inalcançáveis, mas fácil e docemente imagináveis; que impregnavam de cores meus olhos e de sabores minhas ilusões. 
 
Agora, o marido me traz, recortada de revista, a história de uma cidade feita de música: sons forjados em cordas, madeiras, metais... São camerattas, sinfoniettas, orquestras, megaorquestras... distribuídas por shoppings, asilos, postos de combustível, presídios, igrejas, praças, teatros... para serem ouvidas por todos, graciosamente, desde a manhã até a noite, o que me soa quase impossível, mas deliciosamente imaginável. 
 
Pois essa cidade não se restringe à mente criativa dos sonhadores. Ela existe e, melhor, é brasileira. Há nove anos, a cada janeiro, a catarinense Jaraguá do Sul se faz melodia, harmonia e ritmo, ao congregar, durante duas semanas seguidas, crianças, jovens e decanos; estudantes escolhidos por mérito, músicos experientes e figuras estelares das notas de vários estados brasileiros e várias partes do mundo, em uma sinfonia diferente, porque aberta a múltiplos ouvidos, corações e almas, em diversos pontos da cidade ao mesmo tempo. São 900 instrumentistas de 30 países, envolvidos em aulas e apresentações, oferecendo boa música a quantos quiserem apreciá-la.
 
Durante esse período encantado, nas ruas, nos restaurantes, nas escolas e casas comerciais; nas salas, nos elevadores e corredores de hotéis, você convive com os personagens de uma bela história, indo e vindo, sorridentes ou concentrados, sempre iluminados, instrumentos musicais às costas ou às mãos, confiantes e desenvoltos, como se transitassem pelos caminhos oníricos de um reino-concerto, uma pasárgada sinfônica - aventura consequente, utopia possível - especialmente construída para eles. O que não deixa de ser também verdade.
 
Criada em movimentos de amor e lucidez por mentes inspiradas e brilhantes, como a de seu diretor artístico, o oboísta e regente Alexandre Klein (Alex Klein); harmoniosamente executada por jovens e por experientes músicos de renomadas orquestras de vários pontos do planeta, que, lado a lado, a compartilham sob a batuta de maestros de quilate internacional; mantida sob o patrocínio de indústrias-árvores: raízes bem fincadas (em solo nosso), e frondosas e frutuosas copas abertas à promoção e à criação de tecnologia, funcionalidade, rentabilidade, cultura e, sobretudo, Beleza, e apoiada por outras entidades, comerciais, artísticas e governamentais, esta pasárgada sinfônica chamada Femusc (Festival de Música de Santa Catarina) - o maior festival-escola da América Latina, em que solidariedade e saber são trazidos “do mundo todo para o mundo da música” - se faz ver, ouvir, sentir e aplaudir (DE PÉ), em um Brasil de tantas discrepâncias culturais e educacionais, de tantos sons ásperos geradores de incertezas e desesperanças, de tanta dissonância ouvida pelas ruas e praças e prédios comerciais e... 
 
Pois bem, nesse Brasil que, sob muitos aspectos, ainda engatinha, nasce e põe-se de pé; cresce e se firma essa realidade musical, social e cultural grata a qualquer brasileiro sensível e consciente; ergue-se esta sonora verdade que, abrindo-se em Allegro com Spirito e fechando-se em Allegro Maestoso, é, toda ela, em essência, um Prelúdio - uma promessa, janela aberta para novo sonho que, mais uma vez, se plasmará em carne e ossos e nervos e notas e alma, no próximo janeiro, e ecoará por todo o ano.
 
Sei disso porque lá estive, ouvindo a música que eu quis no espaço que escolhi. Sei disso porque fui recebida com o carinho e a atenção de almas especiais. Sei (e não me esquecerei) disso porque em meu coração ficaram gravados, além da arte, muitos rostos e nomes de aprendizes e expoentes, e de outras pessoas que, mesmo fora dos palcos e do universo das notas, ajudaram a tornar real essa fantástica história.
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista

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