Balanço

Por: Débora Menegoti

O calor esticava o asfalto que chiava no meio da rua, omelete negro. Meus ombros caiados e meus pensamentos inquietos me pousavam como acalanto, amparo. “A liberdade também consiste em olhar de frente as situações em que a pessoa se meteu voluntariamente e aceitar as responsabilidades. Ter razão é às vezes doar-se, é entender de resignação.”
 
A vida que me toma, o trabalho, é proporcional à vida que ele me doa? Penso quantos anos fiquei a me revoltar pela falta de união em casa. E minha angústia agora cresce como um pão caseiro. Não cheira tão bem e transborda da forma. Dentro de mim ta parecendo um corredor de supermercado. Meu carrinho ta vazio e não sei pra quê tanta coisa pra se ver ao som de músicas tão imbecis. 
 
Penso que sua loucura parece a minha. Você também viveu de idéias fant ásticas que não dão em nada. Renunciou a tudo para ser livre. Se desse mais um passo, renunciaria à própria liberdade. ‘E tudo te seria devolvido’.
 
 Talvez agora seja mesmo tarde. Talvez eu fosse mais compreensiva se minha mãe não tivesse lavado nossas roupas na água suja dos panos de chão, que lavaram antes, estes, toda nossa imundice pela casa afora... Talvez... Talvez eu pudesse te falar agora da coleção de pios de passarinho de meu tio Ditão que é o homem mais macho, mais forte e mais doce do mundo! Às vezes diria como é bom soltar pipa de cima do telhado com uma filhinha bem sua, de olhos jabuticabas a fazer luxinho com o rosto nos seus antebraços. Talvez eu não tivesse jogado o filhotinho de passarinho para minha cachorra devorar em momento de cólera. Talvez. Mas por outro lado se eu fosse capaz de fazer pior eu não me lembraria disso com tanta culpa, talvez seja só mais uma desaprovação dentre tantas outras da minha coleção de enganos e de gente malcriada.. Má Criação? 
 
Bom, Será? Tua resposta decorada, dissimulada e cheia de encanto exaspera minhas incertezas, queima as paredes frias de meu abrigo e me aconchega ao teu peito. Meu unguento, minha conchinha. Vestido de céu e me diz bem de pertinho, como se diz nas igrejas, que eu sou perdoada, que acredita em mim, que sou amada. 
 
Vem o rio de mim e me lava, parece não ter começo nem fim, dilúvio, depois virá o sol; derrubam seus dedos que adubam sonhos.
 
Me ponho de joelhos para buscar a fé, canso de viver entre parentes(es). Mas um ou outro é capaz de me mostrar que Deus é justo. Bem justo. Me espreme quase. 
 
Rosa, me pinto de blush depois de terremotos.
 
Débora  Menegoti, leitora
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras