Depois de tudo

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Ele trabalhava desde pequeno em indústria de calçados e quando o diploma de curso superior já lhe acenava, passou a gerenciar a parte comercial. Inteligente, tinha boa apresentação, apesar de seus finos cabelos emoldurarem uma calvície precoce. Qualidades outras não lhe faltavam, pois num rápido passar de tempo já era possuidor de uma pequena empresa. Enamorou-se de uma jovem vistosa, já formada, do seu mesmo ramo e a paixão os levou ao altar. Formavam um belo par, aprovado pelas famílias e apreciado pelos amigos. A vontade de incluir filhos em suas vidas não rompeu as barreiras da individualidade. Optaram por não tê-los. Eram unidos por valores comuns que os motivavam na convivência diária. Encontravam no trabalho a realização dos seus ideais. O progresso material foi inevitável. Ela agregava força e competência aos negócios, sem a presunção de ser melhor do que ele. Faziam passeios esporádicos, participavam de grupos sociais e cresciam financeiramente. Mas, o amor em suas várias fases e sutilezas, pode transformar e alterar a vivência das pessoas. A rotina, esta inimiga das uniões, os impediu de reinventar suas vidas. O cotidiano instaurou um vazio em seus corações. O que era paixão, afeto, transformou-se em tolerância, pesar, indecisão.
 
Viveram vinte e cinco anos juntos e a família participou de uma belíssima comemoração, onde puderam relembrar a história de sucesso que eles construíram. E foi no dia seguinte que a aliança dos dois terminou. A solidão emocional, a inquietação, a falta de um elo mais profundo atiraram o casal num abismo que para sair precisavam redefinir suas vidas. Ele foi morar sozinho, perto dos irmãos; ela tinha a companhia de um luxuoso cachorrinho. Separados os bens, cada um foi administrar o que era seu, ganhado que fora, arduamente.
 
A travessia deles não terminou. No outono da vida, as pretensões são outras, os sonhos assumem patamares mais baixos, são mais reais. Nesse momento lhes resta encontrar a felicidade dentro de si e, então, escolher entre os novos caminhos que a vida lhes oferece. 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora
 

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