De verbos e vidas

Por: Eny Miranda

Foi estarrecedor o que aconteceu.” “Fiquei estarrecido com o fato.” “É de estarrecer, o que andam dizendo por aí...” 
 
Estarrecer, do latim vulgar exterrescere, ligado a exterrere - aterrorizar (“fazer tremer, dar calafrios”), ou (já vi em algum lugar) estarrecer também significando aterrorizar, aterrar, mas com uma faceta, digamos, “mais literal”, advinda de “cair por terra, esconder-se, afundar-se na terra por medo extremo, pavor”. Hoje, porém, mais do que relacionado aos fenômenos que fazem o coração disparar de pânico, esse verbo é usado nas situações que nos chocam e entristecem, ou, metaforicamente, que nos desconcertam.
 
O poder e a ductilidade, a força e a plasticidade da palavra, e sua evolução, desde o berço, sempre me intrigaram e apaixonaram: essa capacidade de algumas linhas e espaços ou alguns sopros articulados moverem e demoverem pensamentos, suscitarem afetos, realizarem histórias, conduzirem sentimentos; esse condão de, no silêncio absoluto consentido ou na árida solidão imposta, enlaçando fios, produzir melodias ou algaravias, doces colóquios ou acalorados debates; conceber perfumes inebriantes ou lixiviar pútridas secreções. Esse maquiavélico dom de, num sopro, desfazer muralhas e escavar precipícios; erguer verdades sobre mitos, pulverizar fatos, “materializar” quimeras. 
 
Contudo, ando assustada de tanto ver palavras vigorosas sendo lançadas a ventos estéreis; assustada por acompanhar a debilitação de vocábulos pelo uso repetido ou indevido, como tecidos que se vão puindo pelo manuseio ininterrupto ou impróprio; aquarelas que se vão desbotando por exposição contínua; sentimentos que se vão atenuando, amortecendo, pela vivência cotidiana. Lembra-me o que ocorre com a violência, que cada vez mais se banaliza, graças à sua prática e exposição reiteradas, e (o que é assustador) com o sentimento de indignação, que parece se abrandar diante dessa violência reiteradamente praticada e exibida. Do mesmo modo, a força do vocábulo indignação, por excesso de uso à visão do ato indigno, míngua a cada dia. Ando assustada com isso porque, depois que esse pedaço de vida nascido da junção traço-espaço-suspiro, esse “signo de uma organização espiritual que consuma a unidade do ser com o universo” (como disse o mineiro Poeta) enfraquece, passa a gravitar a periferia das emoções genuínas, espaço sem peso, limbo do verbo, e, então (eis o grande perigo), a unidade viva e infinita que reveste pode ser com ele remetida a esse mesmo campo de sentidos rasos, desvitalizados. 
 
Haverá retorno?
 
Qual o grau de resiliência de um vocábulo? (Resiliência, do latim resiliens, que se refere à capacidade de um corpo recuperar a sua forma original, voltar ao estado natural, após ter sido submetido a uma deformação). E o de um sentimento? (Resiliência, conceito psicológico emprestado da física, que diz respeito à faculdade de o indivíduo lidar com problemas, enfrentar e superar obstáculos, resistir à pressão de situações adversas).
 
Peço à musa da palavra inspiração e, ao leitor, uma boa dose de paciência comigo, se exagero em minha preocupação com o comportamento de verbos e vidas.
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista

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