O Poeta Judas Isgorogota

Por: Caio Porfirio

O poeta Judas Isgorogota trabalhou umas quatro décadas no jornal A Gazeta, de São Paulo, fundada por Cásper Líbero, e de lá saiu, não aposentado, mas através de um ‘acerto’ com a direção da empresa, então falida e em mãos de outro grupo, que lhe deu uma importância irrisória pelos anos de trabalho, pago em parcelas mensais. Quando se aposentou como escritor, com a minha ajuda e a ajuda de Antônio Carlos Augusto Bonafé, a Previdência descobriu o ‘acerto’ grosseiro e forçou o jornal a aposentá-lo como devia. Ele nos ficou grato pelo resto da vida e me deu meia dúzia de bom uísque estrangeiro, para que eu me embebedasse à vontade.
 
Judas não era bem um espírito vingativo, mas quando não gostava de um escritor ou de sua obra, sai da frente ... Descia a lenha através da sua página literária d’ A Gazeta. Arrasava com o sujeito.
 
Almoçava todos os dias no restaurante da UBE, e nas rodas de amigos não deixava de relembrar coisas de sua terra, Maceió. Veio de lá em 1927, muito moço, e nunca mais voltou para revê-la. Eu não me conformava:
 
- Por que não vai rever sua terra, Judas? É tão fácil... Voo de poucas horas. 
 
Punha sempre obstáculos, nenhum deles convincente. Gostava também de relembrar os anos de trabalho na editora de Monteiro Lobato. Lobato quem leu os seus primeiros versos e assombrou-se com o seu talento. Nessa época ainda não adotara o pseudônimo de Judas Isgorogota. Assinava o seu nome verdadeiro: Agnelo Rodrigues de Melo. 
 
E se fez poeta de renome assinando sempre Judas Isgorogota. Agnelo Rodrigues de Melo só em documentos oficiais. Como aconteceu com o escritor Marcos Rey, que nasceu Edmundo Donato.
 
Eu colaborava semanalmente na sua página literária, resenhando livros. Brigávamos sempre. Quis modificar um texto meu, porque elogiei um livro de José Mauro de Vasconcelos. Ele detestava o Zé Mauro. Eu ameaçava de não escrever mais nenhuma linha para o suplemento dele. Ele recuava e me dava presentes. Tenho ainda comigo uma bela camisa vermelha, importada, caríssima.
 
Um dia, eu, Volney Milhomem e Clóvis Moura resolvemos fundar uma editora. Chancela bonita: Editora Pasárgada. O primeiro livro, belamente impresso e pago totalmente pelo autor, claro, porque não tínhamos nenhum dinheiro e nem distribuidor, foi Noite Azul, excelente obra poética de Aluysio Mendonça Sampaio. Até o coquetel de lançamento muito concorrido, na Livraria Teixeira, foi pago pelo Aluysio.
 
Passamos a ser procurados. Cobrávamos uma faixa de lucro, porque queríamos ficar com algum... Pois o Judas, para nos prestigiar, porque ele tinha editora de graça, a Saraiva, que lançava todos os seus livros, publicou pela Pasárgada uma seleção dos seus poemas: XXX Poemas de Judas Isgorogota, em 1973. Ele escolheu até a gráfica e desembolsou tudo. Foi o último livro dele publicado em vida. Em Cantos da Visitação, de 1970, dedicou-me a segunda parte da obra, dividida em cinco. Nascido em 1901, deixou-nos em 1979, marchando para os oitenta anos. 
 
Não era um espírito religioso, mas admirava muito a figura de Cristo e muitas passagens da Bíblia, presente em vários dos seus poemas. No fundo, um artista e um cético. 
 
Sempre bem vestido e de chapéu, pasta debaixo do braço, naquele andar meio bamboleante, estatura mediana e magro, meio encurvado nos seus mais de setenta anos, óculos e olhar voltados para o chão. 
 
Caio Porfirio,  escritor,  crítico literário, secretário administrativo da União Brasileira de Escritores, ganhador do Prêmio Jabuti

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