Os Renoir: pai e filho

Por: Sônia Machiavelli

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Concluído em meados de 2013, quando entrou em cartaz na França, o filme Renoir, de Gilles Bourdos, disputou com outros, junto à Academia de Cinema de Hollywood, uma indicação para ‘melhor filme estrangeiro’. Não emplacou, o que causou certo desconforto entre os que o acreditavam com chances de concorrer ao Oscar 2014. Talvez o que haja pesado mais na desclassificação tenha sido a concepção do diretor, que construiu o filme com imagens destinadas à contemplação. Isso tornou o ritmo demasiado lento para nosso tempo pós-moderno, marcado pelo signo da velocidade. Os filmes que disputam a estatueta no próximo dia 2 de março mostram como a ação tornou-se um valor.
 
Mas, à parte a falta de agilidade, é um filme bonito, cujas imagens vicejam em nosso imaginário : águas, plantas, flores, tudo em movimento de brisa, cenário bucólico perfeito para as mulheres que Renoir (Michel Bouquet) prefere pintar nuas. Num exercício exigente e sofisticado, o diretor fez as lentes das câmeras apreenderem detalhes mínimos que na condensação do todo mostram várias cenas como um recorte de tela impressionista. ‘Detalhes’, aliás, é palavra recorrente no discurso do pintor.
 
Outro ponto forte são os diálogos, pontuados por observações sobre conceitos de arte, como a de Renoir, para quem ‘um quadro deve ser uma coisa graciosa e feliz’. O relato traz à cena o momento em que o mundo, açoitado pela Primeira Guerra Mundial, revê os alicerces da sociedade, da política, da economia e da estética dominantes. Neste clima o pintor, que chega muito doente mas ainda produtivo ao fim de seus dias, tenta conversar com o filho Jean (Vincent Rottiers), jovem soldado ferido em batalha que se interessa por uma arte incipiente, o cinema.
 
 Ambos os Renoir, Auguste, o primeiro; Jean , o segundo, escrevem neste começo de século XX um capítulo de extrema importância na história de suas vidas, da arte ocidental e de seu país. O pintor termina, a duras penas, seu último quadro, depois de conquistar a honraria de ser o único artista vivo a expor no Louvre. O soldado que observa a atividade do pai, intui que a sétima arte estava chegando para conquistar grandes públicos. Há uma distância entre estes dois olhares, mas também uma aproximação, na medida em que ambos concebem a arte como o real transfigurado sob a luz do ideal. 
 
O filme mostra especialmente o momento em que entre pai e filho irrompe a mulher que vai mobilizar paixões de ambos e conferir às suas vidas maior energia. Contratada por Renoir como modelo, ela se conduz de forma muito genuína, expondo seus desejos, contrariando a ordem doméstica, brigando com as mulheres que tendo antes posado para o pintor tinham se transformado em empregadas. O nome desta moça é Andrée (Christa Théret).
 
O filme começa com ela, pedalando sua bicicleta pelas veredas de Cagnes -sur-mer, na Côte d’Azur. Ao bater ao portão da casa e ser acolhida, despertará Eros naquele mundo onde a beleza já habitava, mas fora atingido pelo luto, pela doença e pela guerra, o que faz diferença. De forma intuitiva, Andrée apressará o processo que está em gestação quando a história começa a ser narrada. Vemos por seus olhos o desenlace de um mundo e o advento de outro: a decrepitude do pintor e o nascimento do cineasta. O quadro dividirá lugar com a tela, a modelo se transformará em atriz, o soldado trocará o fuzil por uma câmera, o final da guerra obrigará a um redesenho do mundo.
 
Todo um cenário se esboça enquanto os pinceis amarrados às mãos de Renoir, que sofre dores atrozes, conferem cores e formas àquela que seria a obra prima, As Banhistas. Neste momento, nós, os pósteros, sabemos o que vai acontecer e na tela é revelado em curtas frases factuais: Pierre-Auguste morrerá em 1919; Jean se tornará grande cineasta; Andrée  (inspirada na musa do pai e amante do filho) fará alguns papéis inexpressivos e desaparecerá de cena.
 
 O filme perfila de forma finamente estética a vida de dois seres humanos que dedicaram o melhor de si àquilo que acreditavam  perene. Legaram-nos como obras máximas quadros como As banhistas e filmes como A regra do jogo. Renoir, de Gilles Bourdos, desvela os sofrimentos mas também as alegrias que permeiam toda criação artística.
 
 
O CINEASTA
 
Gilles Bourgos. 
 
O diretor Gilles Bourdos tem 52 anos e nasceu em Nice, não muito distante da região onde o pintor Renoir viveu seus últimos 17 anos. O filme aqui resenhado a mostra de forma muito sugestiva, como se nos convidasse a entrar no cenário bucólico de onde se divisava bem próximo o mar. Gilles começou sua carreira nos anos 90, realizando dois curtas que não se destacaram. Mas no final daquela década, Desaparecidos, que conta a história de um trabalhador judeu ( Gregoire Colin) perseguido pela polícia comunista de Stalin, foi bem recebido em Cannes. No ano anterior, Bourdos se unira a um jovem roteirista, Michel Spinosa, para criar a Persona Films. Em 2002 ambos convidam de novo Colin para o papel principal de Inquietações, um tipo de thriller sobre o reencontro de duas pessoas incomuns, também elogiado pela crítica. Entusiasmado com o sucesso, o diretor reúne elenco internacional para filmar E depois..., adaptação de um romance de Guillaume Musso. O filme é selecionado para o Festival de Toronto.
 
Em 2012 começa a filmar Renoir, que alguns consideraram projeto ousado, por tentar retratar duas figuras excepcionais em sua arte: Pierre-Auguste Renoir, na pintura; Jean Renoir, no cinema. Para os papeis principais convidou Michel Bouquet, Vincent Rottiers e Christa Théret. Mas não se descuidou dos personagens secundários, como o filho caçula do pintor, que revela tendências mórbidas e se sente rejeitado pelo pai, e as empregadas da casa, que, bem disse um crítico, “habitam o filme como as linhas difusas sob cores intensas dos quadros do pintor impressionista”
 
Já foram bastante assinalados um toque oriental no filme, como “a leveza retratada com certo peso e solenidade”, os travelings lentos, os movimentos flutuantes que descortinam umas coisas para revelar outras. À parte o gosto pessoal de Bourgos, ressalte-se na construção de sua obra as influências de Hou Hsiao- Hsien e de Mark Lee Ping Bin, referências importantes na filmografia do diretor. (SM)
 
FILME
 
Filme: Renoir
Dirigido:Gilles Bourdos 
Atores: Michel Bouquet, Christa Theret, Vincent Rottiers mais 
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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