E viva a folia!

Por: Chiachiri Filho

E o carnaval começou. Mas, que carnaval? 
 
Lembro-me ainda do tempo dos corsos. O corso nada mais era do que um desfile de carros em torno da principal praça da cidade. Era alegre, animado, divertido. Os carros rodavam e os confetes e serpentinas espalhavam-se em grande quantidade pelos seus interiores e pelas ruas e calçadas da cidade. Marchinhas, principalmente as marchinhas, e sambas faziam a trilha sonora do cortejo. Cheguei a participar de um corso pelas ruas de Franca. Talvez o último, mas dele participei! Meu pai alugou um carro de praça e com ele demos várias voltas ao redor da Praça Nossa Senhora da Conceição. Infelizmente, o automóvel era fechado. Divertiam-se mais aqueles que desfilavam num carro sem capota . Mas, apesar disso, valeu a pena e ainda me recordo com saudade daquele corso francano.
 
Depois, os bailes de carnaval desenrolavam-se dentro dos salões. Em Franca , era na AEC, sempre na AEC, situada à época num prédio da Rua General Teles, ao lado dos Correios e Telégrafos. Ali participei de várias matinês. Na entrada do salão havia um quadro do diabo, chifrudo e corado. Sempre me assustava a figura do capeta. Porém, dentro do salão, a alegria dominava. Havia também confetes e serpentinas e, por não ser proibida, a famosa lança-perfume. Havia dois tipos de lança: a metálica e a de vidro. A de vidro era mais delicada e muito mais perigosa: podia explodir e ferir quem dela se utilizasse. Incontestavelmente, as lança-perfumes deixavam o ambiente muito mais cheiroso. Alguns, mais românticos, dirigiam os seus jatos em direção aos cabelos, aos bumbuns ou aos seios das moças. Outros, mais maldosos, esguichavam direto nos olhos dos foliões que, por isso mesmo, tinham de se proteger com óculos feitos de plástico transparente.
 
Na minha adolescência e juventude, os bailes de carnaval realizavam-se no novo e deslumbrante salão da AEC, localizado agora na esquina das Ruas Monsenhor Rosa e General Osório. Os bailes eram animados pelas orquestras que não se cansavam de tocar as famosas marchinhas , as novas e as antigas. E não podia faltar o samba, o samba e alguma Escola de Samba que entrava no salão para agitar ainda mais os foliões. Sem dúvida, era uma festa bonita, agradável, divertida.
 
Quando adulto, ainda compareci em alguns carnavais do Castelinho e do Clube de Campo. Foram os últimos. As drogas ( e dentro deste item incluo o álcool e as músicas ) e as brigas promovidas por valentões, fantasiados ou não, acabaram com a festa, com a alegria, com o carnaval. 
 
Hoje eu somente ouço o carnaval. Ouço-o de longe, de bem longe. Ouço os pneus cantando nos “rachas” da moçada e as sirenes da polícia cortando a madrugada para atender aos feridos de uma briga ou acidente.
 
E penso cá com meus velhos e desbotados confetes: será que ainda, algum dia ,voltaremos a ser civilizados?Será que algum dia o carnaval voltará a ser uma festa, uma grande festa popular e não um palco para os desajustados, os brigões e os drogados?
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 

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