Chico Franco na passarela

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Cruz credo, credo em cruz
Ases do Ritmo depressa acende a luz
Faz brilhar na passarela
“Flor do Lácio, inculta e bela”
Nesta noite de esplendor...
 
O texto acima é a primeira estrofe do samba-enredo, criação do poeta e compositor Zerroberto, e com o qual a escola de samba Ases do Ritmo homenageará meu trabalho literário e minha atuação no magistério.
 
Confesso, neste momento, que dois sentimentos contraditórios me têm paralisado nesta semana que precede a grande festa.
 
Experimento receio enorme, temo não saber comportar-me em plena festa, em plena avenida, já que me incomoda sobremaneira ser centro de atenções. Imagine durante o desfile, diante de milhares de pessoas. Serei, possivelmente, o único folião desritmado, em meio a harmonias diversas, cadenciadas todas ao ritmo de alegria única, brotando nas almas e se extravasando nos pés, corpos de todas as criaturas irmanadas a momos, pierrôs e colombinas, em fraternidade de vida e calor.
 
Por outro lado, não consigo despojar-me da vaidade que me veste corpo e alma, sabendo que livros meus Deuses Mutilados, Via Crucis - estarão sendo relembrados em meio a acordes e ritmos de um povo que veste harmonicamente todas as cores e sons.
 
Não há como não me envaidecer, pensando em Chico Franco percorrendo a avenida ao compasso do coração popular, no ritmo que nos identifica e nos irmana.
 
Assim, temeroso ao extremo, envaidecido ao extremo, aguardo a chegada da mais tradicional festa do meu povo.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 

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