Parece curva do colo. Parece você(s)

Por: Marianna Ambrósio

Mas o amor é convivência e dessa crença eu não abro mão. Embora eu mude muito de opinião, carrego um conservadorismo grosso, que aprendi fazer caber até nos meus dias mais desvairados. Aprendi segurar a mão de deus antes de saber dizer boa noite ao diabo. E não tenho medo de nenhum dos dois. Espero meu sono sentada, escoro a cabeça, minto pro cansaço. Mentem pra tudo nesses dias, muito antes de mim, de nós. Mentem até liberdade e eu não sei compreender. Envelheci o pensamento com exagero. Que antes o sono renovava tudo, dormir e acordar era como morrer e nascer de novo, um dia novo eu sabia encarar como um novo dia, quando contida do abraço interno da infância. É cedo ainda, mas parto, parte; uma parte de mim partiu -enraizada- daqui. E ao mesmo tempo sou e não sou, sonho e não vivo, mas vivo cada sonho como sentisse cheiro, gosto, vento, cor. Sentia mais frio antes de ter comigo a lembrança de como se sente o meu pescoço quando encontra o seu pescoço num abraço. E que tamanho de exagero dizer isso, irremediavelmente exagerada. Seu abraço pouco, seu beijo pouco, meu mergulho pouco -sem saber nadar- no seu olhar de muito; eles foram a minha convivência sua. Não que baste, bastar é abismo de não faltar e, vive-se do que falta, do tempo que falta até a morte buscar p’ronde for. Do tempo que falta pra brotar coragem, não sei dizer. Não saber tanto me parece quase sinônimo de solidão, essa busca desgovernada -ou governada pela desrazão- por algum tipo de compreensão. Mas aqui não anseio compreender, meu simples anseio é um desejo quase funcionalista de tirar proveito da solidão. Quanto mais sozinha, menos me interfiro, menos sou permeável ao pensamento do ouvido alheio. E mais me olvido do tempo, como se fizesse malabarismo e o tempo fosse meu, das minhas mãos, do que jogo no mundo sabendo que vai voltar pro meu tato. Não tenho gosto pela solidão, só aprendi a mantê-la sem que me cortasse a jugular.’
 
 
Marianna Ambrósio, universitária, Serviço Social Unesp

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