A melhor rede social

Por: Maria Luiza Salomão

Cada um sabe o ponto exato onde aperta o sapato, mas o outro o desconhece. Daí resulta que a sociabilidade se desenvolve em uma negociação palavrada. A conversa instaura, pelo menos, duas versões e, se tudo correr redondo, fará surgir uma terceira, ou quarta, ou quinta...
 
Parece fácil conversar, no entanto, sensações, sentimentos, ideias, fatos observados, fatos complexos, precisam ser montados e desmontados, em mútuo respeito. Há que ter disponibilidade para. 
 
Como dizer o que está na ponta da língua, na ponta da alma, quando não se acha aquela palavra? A antena do ouvido atento sofre interferências, o sinal pode sumir (como acontece com os celulares, de repente). E, ainda, mesmo quando o sinal emitido é alto e claro (o que é raro), a palavra dita, clara mente, pode assustar quem tem ouvido fechado, hostil, arrevezado. 
 
A antena fica sujeita aos sentimentos, fator complicador (e também multiplicador) que potencializa e expande o dito e o ouvido. Se emoções subterrâneas às palavras não são hospitalizadas por quem fala e por quem escuta, tornam-se ruídos. Quando um não se dispõe a conversar, o resultado é: monólogo. O monólogo invadiu a escrita do século XX, o personagem dialoga com os próprios botões, os escritores (Guimarães Rosa, Joyce, Cortázar) anteciparam os tempos de hoje, em que se conversa com a telinha do computador, mais do que cara a cara. 
 
Conversar é comunicar e não-comunicar. Há comunicações que, paradoxalmente, não almejam ser compreendidas, consciente e inconscientemente. Quanto maior a confiança entre os interlocutores, mais se busca o esclarecimento. Basta o medo, a nóia, para cessar um fluxo, e as palavras apenas gotejam: pontuais, aflitas, medidas, ocas, mal ditas palavras.
 
Não há ponte comum, comunicação, sem confiança. Sem ela as palavras-pérolas se perdem no tapete-chão da realidade, somem em meio às hostis estátuas surdas-mudas, desaparecem nos ralos da incompreensão. 
 
Nós sete, só mulheres (coisa rara), tecemos uma rede, à moda de uma pescaria masculina no Pantanal (mas de breves horas). Pescadoras de palavras-quinas-de-alma, em encontros fecundos porque íntimos. Temos a rede plena, entre nós. O tal fio sem fio que nos uniu, o facebook, tece uma rede dispersa e distraída. Soubemos entre-ter, entretecer, entre-ser.
 
Sentar à mesa, abraçar com vontade, rir, desnudar corações, sem firulas nem disputas, é arte milenar, quase extinta, que deixa qualquer uma, com os dedinhos livres e à vontade, dentro do próprio sapato. 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)
 

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