Uma história de máscaras

Por: Sônia Machiavelli

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O carnaval ainda estava longe quando, zapeando a TV, vi o teatrólogo Antônio Abujamra na tela contando mais uma história de suspense no bom programa da Cultura, Contos da Meia-Noite. Logo percebi de que texto se tratava ao reconhecer no léxico algumas palavras já sepultadas. Mas a sintaxe se mostrava bem viva, já que esta o tempo não enterra. Era o conto O bebê de tarlatana rosa, de um escritor criativo e profícuo que parece ter caído no esquecimento dos brasileiros: João do Rio.
 
Sinto-me na obrigação de explicar o sentido de ‘ tarlatana’, palavra que me exigiu o dicionário quando a li pela primeira vez na coletânea Os melhores contos brasileiros do século XX, pesquisa importante de Ítalo Moriconi, publicada em 2000 pela editora Objetiva. Fora ali que me havia deparado com o conto pela primeira vez e confesso que ele me causou mal estar em relação à antagonista. O bom ficcionista tem este dom, de fazer o leitor rejeitar algum personagem, simpatizando com outro, de quem busca entender as perspectivas. Esse artifício literário cria vínculos que são decisivos para o destino da narrativa. No caso do conto em foco, o leitor é levado a se identificar com Heitor Alencar, narrador da história do bebê de tarlatana, “fazenda de algodão muito leve, de malha aberta e engomada, usada em forros de vestidos, saiotes de bailarinas, golas de pierrôs”. Um tecido tipo tule, imagino, e que era então muito visto em fantasias de Carnaval. 
 
O bebê do título e da história não era uma criança, e sim um adulto vestido como tal. Levava ao rosto uma máscara onde o nariz delicado se destacava. Integrando um cordão, antepassado do atual bloco, o corpo bonito e a máscara sugestiva atraem o narrador, acostumado aos bailes elegantes dos grandes salões. Com a intenção de conhecer o carnaval popular, Alencar sai às ruas para: “acanalhar-se, enlamear-se bem.” Seduzido pelo bebê de tarlatana, ele o segue, mas acaba por perdê-lo de vista no meio da multidão. Dois dias depois o reencontra e começa o jogo de sedução de parte a parte. 
 
Entre introduzir a história, que conta para um grupo de amigos pertencentes como ele à elite local, e descrever os dois encontros, o narrador promove aproximação com o leitor fazendo-o ver como enxerga a dupla festa: de um lado, a comemoração referenciada pela elegância e alegria nos ricos salões; de outro, a balbúrdia das ruas, indiciada pelas ‘extravagâncias e prazeres baixos’, que ele deseja partilhar. Sua descrição da segunda folia compõe um espaço onde vige ‘o deboche ritual de chegar, pegar, acabar, continuar.’ 
 
Sob o signo da luxúria, Alencar se atira ao bebê de tarlatana rosa , que aceita a aproximação e o provoca, encaminhando-se ambos para um beco escuro, onde começam a trocar carícias. Como o nariz postiço ‘com cheiro a resina’ incomoda ao roçar o rosto do narrador, este pede à mulher que se livre da máscara, mas ela se recusa. Usando um artifício, ele a atrai para si com o braço esquerdo e com a mão direita arranca-lhe a máscara. Descobre debaixo dela “uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinante- uma caveira com carne.” Allan Poe assinaria este relato.
 
Não é o final da história. O leitor interessado poderá descobrir na leitura do conto o que sucedeu depois - e não é muita coisa. Mas o essencial, como na maioria dos textos de qualidade literária, viceja não apenas na história que se conta, mas na forma como é contada. Assim, é nas entrelinhas, através do minucioso e sofisticado jeito de apreender e revelar a realidade, que o escritor constrói um dos melhores contos da literatura brasileira do século passado. Seu eixo narrativo centrado no duplo das festas e das máscaras expande-se para outras dualidades. 
 
Pois não só a moça usa disfarce para esconder defeito e ter a oportunidade, como diz, ‘de gozar ao menos nestes dias de carnaval’. Também o folião, em busca de sexo, se disfarça, troca seu traje de dândi e veste roupa leve em cima da pele ‘e todos os maus instintos fustigados’. Não é à toa que afirma, ao encarar o rosto disforme, ter “recuado num imenso vômito de mim mesmo.” Sem disfarce, de repente o rosto se converteu em espelho.
 
O bebê de tarlatana rosa descortina aos olhos do leitor a dualidade do homem, a aparência que oculta a realidade, a força dos impulsos sexuais, o horror ao diferente, além de breve mas expressiva pincelada da sociedade carioca nos anos 1920. Está entre as melhores narrativas curtas da literatura brasileira que elegem como tema a maior festa popular do nosso país e uma das mais conhecidas no mundo.
 
 
ARTISTA MÚLTIPLO
 
João do Rio. 
 
Filho do educador Alfredo Coelho Barreto e de Florência Cristóvão dos Santos Barreto, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho nasceu em 1881. Fez os estudos elementares e de humanidades com o pai. Aos 16 anos, ingressou na imprensa. Em 1908 estava no jornal Cidade do Rio, ao lado de José do Patrocínio e seu grupo de colaboradores. Surgiu então o pseudônimo, com o qual se consagraria literariamente. Nascia João do Rio. Seguiram-se outras redações de jornais onde ele se notabilizou como o segundo homem da imprensa brasileira a ter o senso da reportagem moderna. O primeiro foi Euclides da Cunha. Nos diversos veículos onde trabalhou, conquistou popularidade, sagrando-se o maior jornalista de seu tempo. Como homem de letras, deixou obras de valor, sobretudo como cronista.  Como teatrólogo, teve grande êxito a sua peça A bela madame Vargas, representada pela primeira vez em 22 de outubro de 1912, no Teatro Municipal. Ao falecer, era diretor do diário A Pátria, que fundara em 1920. No seu último Bilhete (seção diária que mantinha naquele jornal), escreveu: ‘Eu apostaria a minha vida (dois anos ainda, se houver muito cuidado, segundo o Rocha Vaz, o Austregésilo, o Guilherme Moura Costa e outras sumidades)...’ O prognóstico ainda era otimista, pois não lhe restavam mais que alguns minutos quando escreveu aquelas palavras. Morreu aos 40 anos. O enterro realizou-se com cortejo de cerca de cem mil pessoas. Por desavenças com um colega, em vida manifestou desejo de que seu corpo não fosse velado na Academia Brasileira de Letras, onde ocupava a cadeira de número 26. Jornalista, cronista, contista, teatrólogo, destacam-se entre seus títulos As religiões do Rio; O momento literário; A alma encantadora das ruas; Era uma vez; Cinematógrafo; Fados, canções e danças de Portugal; Dentro da noite; Sésamo; A mulher e os espelhos. O conto resenhado nesta página foi selecionado por Ítalo Moriconi para a antologia Os cem melhores contos brasileiros do século, da editora Objetiva.(SM)
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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