O epitafista

Por: Everton de Paula

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Dizem que aconteceu, lá por volta de 1947, numa pequena cidade do interior sul de Goiás. Uma escola municipal, um postinho de saúde, a igreja na praça central, boteco a cada esquina, nem cinema mudo tinha. Havia o clube Bandeirantes que reunia, nos finais de semana, um punhadinho de gente mais culta para ler folhetins, promover saraus e ouvir chorinhos e valsas tocadas num velho piano Pleyel, pela filha de um coronel das antigas, fazendeiro e dono de duas mil e tantas cabeças de gado.
 
Mas a cidade tinha lá uma curiosidade, melhor dizendo, uma especialidade: os serviços profissionais de um epitafista. Tratava-se de um ex-professor de português, aposentado havia décadas, e que se dedicara a este ramo por gosto e necessidade de pagar a conta mensal da velha pensão, que ostentava o honroso nome de “Palacete da Baronesa”, sob cuja placa lia-se “Pensão Familiar”. 
 
Meu bom leitor está em dúvida sobre o que seja um epitafista? Ora, é quem escreve epitáfios, aqueles dizeres que a família coloca sobre o túmulo de seus queridos falecidos.
 
 Como dominasse um razoável vocabulário e a sintaxe da língua portuguesa, Raimundo (esse era o nome do ex-professor) pôs-se a escrever epitáfios ao gosto das famílias enlutadas. Sabem como é, não havia os remédios modernos, vitaminas, soluções que prolongassem a vida como hoje em dia, de modo que ao menos uma ou duas mortes ocorriam ao mês na cidade, o que já garantia hospedagem digna e alimentação ao epitafista. E cidade pequena vai criando certos costumes que ninguém consegue desenraizar; por exemplo: “Se fulano fez, eu também vou fazer, se beltrano tem eu também quero ter!” Ah, delicioso modismo para o ex-professor. Era alguém morrer e, antes mesmo dos preparos fúnebres, ia-se à pensão para contratar os serviços de Raimundo, uma frase já para o dia seguinte, escrita numa placa de metal ao menos, até que a pedra tumular, a lápide ficasse pronta, vinda da capital.
 
A cidade se impressionou com o primeiro epitáfio: “O perdão é a virtude dos bravos.” Que erudição, que inspiração, que lição perpétua de vida exatamente sobre os restos mortais de um ente querido, assim exposto ao sol e à chuva, ao dia e à noite, a todos que por ali passassem. 
 
Não se passara nem um mês, e surgiu outro no cemitério acanhado: “Perca-se tudo, mas não se perca a esperança.” As pequenas cidades vizinhas começaram a invejar aquele pequeno mas tão significativo gesto. Foi preciso o prefeito intervir e solicitar a Raimundo exclusividade dos serviços epitafistas para sua cidade, que o acolhera tão bem. Raimundo, embora lamentasse ter que reduzir a demanda, contentou-se com a pensão garantida e uma bonificação mensal da prefeitura. 
 
O cemitério foi se tornando, além de um depósito de esqueletos, acervo da mais fina lavoura literária. E as frases foram se sucedendo: “Não chores porque acabou. Sorria, porque aconteceu.” De onde ele tirava essas frases tão pertinentes senão do próprio coração, da alma sensível de um verdadeiro beletrista?
 
Raimundo tornou-se membro do clube Bandeirantes, muito bem acolhido por todos.
 
Mais uma para sua coletânea: “Passante, não chores minha morte.”
 
O que ninguém sabia é que Raimundo, há anos e anos, na sua mocidade, perdera sua noiva a quem tanto amara. A moça morrera de apoplexia, na flor da idade, alguns meses antes do anunciado casamento lá pelos lados do triângulo mineiro. Doeu profundamente em Raimundo, que nunca mais amou ninguém e se enterrou naqueles cafundós para ministrar umas miseráveis aulinhas sobre o vernáculo.
 
Ei-lo então epitafista de primeira, admirado pela sociedade.
 
Foi quando deu para beber. Primeiro às escondidas, no seu quartinho da pensão. Depois, timidamente em alguns bares e no Bandeirantes. Mais tarde, descaradamente nos botecos. Mas os cidadãos continuavam a crer em sua capacidade de criar novos epitáfios. Continuavam a procurá-lo. Mas Raimundo, com a bebida e as lembranças que lhe açoitavam a alma, tornou-se sarcástico. O que transmitiu às frias lápides do cemitério de sua cidade.
 
Morreu o delegado. Agora Raimundo tratava de enviar diretamente à fábrica das lápides as frases, de modo que pouco se podia modificar a mensagem. No túmulo do delegado se lia: “Tá olhando o quê? Circulando, circulando...” A família achou desrespeito, mas diante da grande visitação dos incrédulos diante daquilo que começava a se tornar monumento público, resolveu calar-se.
 
Morreu um velho apreciador de uísques trazidos de Goiânia. Pediram ao epitafista a frase. Dias depois, sobre o túmulo do beberrão, lia-se: “Envelhecido em caixão de carvalho.”
 
Respeitaram mais uma vez a “poesia” de tão ilustre epitafista. E isto se foi tornando hábito. Uns riam, outros criticavam, mas o que sucedia é que o conjunto da obra não só mostrava dois momentos distintos da vida literária do velho ex-professor, como também tornava aos poucos a cidade conhecida na região.
 
A cartomante morreu. Veio-lhe à mente e à pedra tumular: “Eu já sabia.”
 
O hipocondríaco morreu. Não deu outra: “Eu não disse que estava doente?”
 
O jovem garanhão morreu de queda de cavalo, para tristeza das inconformadas mocinhas e algumas senhoras casadas. O epitáfio veio num estalo: “Rígido, como sempre!”
 
E Raimundo cada vez mais bêbado. Desistira de escrever. Não recebia mais nada da prefeitura. Foi expulso do Bandeirantes. Atrasou três meses o pagamento da pensão. Caiu em desgraça, no meio de tanta bebida. Enfim, morreu.
 
Ninguém sabia o que escrever sobre seu túmulo, que permaneceu liso, sem epitáfio algum... Por alguns meses apenas. Até que uma alma caridosa mandou esculpir os seguintes dizeres, ao lado do retratinho assustado de Raimundo: “Enfim, sóbrio.”
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos

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