Deus e o diabo no asfalto

Por: Hélio França

Factível, o carnaval tem se mostrado nas últimas décadas, literalmente, como sendo a festa da carne (ou seria do silicone ? ), tantas são as beldades a desfilar com suas curvas a poucos centímetros de uma total e explícita nudez. 
 
As escolas de samba do Rio de Janeiro vêm a cada ano aprimorando suas apresentações na Marquês de Sapucaí. Realmente, um espetáculo de luzes e cores que se acoplam ao enredo no ritmo insinuante da bateria, esta, o coração da escola, que pulsa freneticamente bombando as alas, transformando-as em artérias fluentes de um êxtase contagiante, quase hipnótico. É uma profusão de brilhos, alegorias, plumas, paetês, purpurinas, tecidos, etc. 
 
Tem-se a impressão de que, no contexto geral os desfiles são sempre parecidos. Ledo engano. A cada ano surgem novidades e surpresas imaginadas e postas em prática pelos chamados “ carnavalescos “. Tempos atrás a bateria de uma escola de que não recordo o nome ousou com a famosa “ paradinha”, hoje consagrada e realizada por outras baterias. Trata-se de um breque geral nos instrumentos de percussão enquanto todas as alas continuam a cantar o samba enredo, sem perder o compasso, para alguns segundos depois o batuque voltar também sem perder o compasso e dentro do ritmo. 
 
Recentemente as novidades ficaram por conta das comissões de frente, por meio de roupagens, truques mágicos e coreografias milimetricamente ensaiadas. 
 
Mas a grande surpresa mesmo deste ano de 2014 não veio dos desfiles do Rio e sim de São Paulo, com a Mocidade Alegre que levou para o Sambódromo a fé, reverenciando de joelhos, todos os figurantes ao mesmo tempo, conjugados com a paradinha da bateria. Pela primeira vez na história dos carnavais de rua uma escola de samba ficou de joelhos na passarela. Inusitado e emocionante. 
 
Para a festa da carne onde a besta sempre vagou babando, a ideia de um enredo representando a fé foi, com certeza, um raio de luz a trazer um pouco de esperança ao tão sofrido mas alegre povo brasileiro, que viu, mesmo que por só por alguns instantes, juntinhos, Deus e o Diabo no asfalto. Deu samba ! 
 
 
Hélio França, engenheiro e membro da Academia Francana de Letras
 

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