Sinais

Por: Eny Miranda

Recebo do filho “transatlântico” a mensagem: “E aqui começou a primavera! Estamos curtindo o nosso quintal. Temperatura de 18ºC”. Junto, a foto de um dourado fim de tarde: o sol esparramando raios oblíquos sobre a mesa posta no gramado - frutas, queijo, vinho... - e, mais adiante, infiltrando-se, fulvo, entre os primeiros verdes do parreiral vizinho, que se estende a perder de vista. O rosto sorridente de minha nora reflete essa luz e também se doura. (Há dois ou três dias, referiam-se ao frio “de nunca mais se acabar”).
 
No primeiro momento, os olhos acatam aquela imagem como realmente primaveril; contudo, logo depois, a razão adverte que no hemisfério norte, segundo o calendário, ainda é inverno, como aqui ainda é verão. Ocorre-me então que a primavera é, como disse o Poeta, mais do que uma estação, um “estado de espírito”; visita que pode chegar a qualquer momento, bastando o azul se abrir inesperadamente à luz de um tépido ocaso, e um sol louro soprar no horizonte aromas de antigas e íntimas lembranças: pétalas macias se dando à luz; zumbido de abelhas; canto de pássaros atarefados na elaboração de seus ninhos; meninas de tranças esvoaçando entre asas coloridas e canteiros palpitantes; perfume de água fresca, vindo não se sabe de onde; murmúrio doce de regatos que correm entre folhagens espessas e borboletas diáfanas, ou ares salobros de longínquos mares que se espreguiçam sob o azul, marulhando histórias.
 
Pode ser que amanhã o sol se embuce, a lâmina do tempo weather ceife louros e luzes, os graus dos termômetros despenquem e mergulhem em flocos macios de branquíssima leveza; que o ar exale a cor fria da lua de inverno; que as pétalas se escondam em secretos cálices; que tudo volte aos esconderijos, às sementes, às alvas promessas do vir-a-ser. Pode ser que os aromas que hoje atravessam livres o espaço passem às fragrâncias ardentes da madeira abrasada crepitando em salas acolhedoras. Pode ser que só desse confinado ocidente venha o clarão avermelhado e cálido que extrapolará o ocaso e atravessará a noite. Pode ser...
 
Pode ser, no entanto, que um leve rumorejar de pétalas que se insinuam aos primeiros raios, que um odor morno quase imperceptível, que “uma irisação do ar, no jogo entre céu e água”, essas minudências que sabem a sonho e sentidos encontrem aquelas pessoas para as quais elas não são apenas som de flautas encantadoras de serpentes, devaneio de mentes poetas, mas signos familiares às coisas mais preciosas da alma. Então, a primavera - boreal ou austral - estará de volta, como quer o filho, que não aguenta mais esperar por ela.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 

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