Por que fui a Cartagena

Por: Sônia Machiavelli

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Não fui a Cartagena apenas para ver a cidade fundada em 1533 por Pedro de Heredia sobre a baía de mesmo nome e desde então um porto  importante da América espanhola. Nem fui só para conferir as marcas deixadas pelos corsários ingleses, embora tenha gostado de me encostar na larga porta de madeira tacheada da casa onde viveu o capitão Frances Drake, vice-almirante do Reino Unido e grande paixão da rainha Elizabeth- a da Era de Ouro. Também não fui  com o  único objetivo de observar as muralhas que Felipe II mandou construir para defender a povoação de ataques piratas, e se mostraram barreira intransponível com seus paredões de dois metros de largura, oito de altura e seis  quilômetros de comprimento. Se alguém pensa que fui para experimentar a ampla oferta gastronômica da cidade moderna que se ergueu extramuros e hoje ostenta rede hoteleira  de grifes requintadas, com restaurantes especializados em comida caribenha, se engana. Como se equivoca quem acredita que fui movida especificamente pelas praias de águas azuis e calmas, brisa constante, areias brancas pontilhadas por coqueiros. Agora, se o leitor aposta que fui  por causa de Gabriel Garcia Marquez, o Gabo, 87 anos completados no dia 6 de março, acerta em cheio. A obra deste escritor colombiano ganhador do Nobel em 1982  mexeu comigo desde que li Cem anos de solidão (1967) onde fulgura em emblemas a cidade imaginária de Macondo. Alegoria da criação bíblica do mundo, do descobrimento da América e da história do século XX na Colômbia, o vasto relato sobre sete gerações da família Buendía  inaugurou um gênero literário,  o realismo mágico, e foi traduzido para 35 idiomas.
 
Mas se  Macondo teve inspiração em Aracataca, cidade natal do ficcionista, foi em Cartagena de Índias que ele buscou os lugares que acolheriam os personagens concebidos para  duas outras obras primas que são o romance  O amor nos tempos do cólera (1985) e a novela Do amor e outros demônios (1994). De todo o conjunto de muitos títulos, foram estes os que mais me tocaram por terem mostrado de  forma profunda o sentimento amoroso. O amor da maturidade, de Fermina Daza e Florentino Ariza, no primeiro caso; o amor trágico entre Sierva María de Todos Los Angeles e o padre Cayetano Delaura, no segundo. 
 
Embora quase nunca apareça com seu próprio nome, pois a transposição de cenários fatalmente se converte em jogo de espelhos deformantes, o que é muito propício ao trânsito por um mundo no qual realidade e magia caminham de mãos dadas, ou, não raro, a magia é apenas um atributo da realidade, Cartagena das Índias se desvela em dezenas de páginas. Assim, um lugar pelo qual passam muitas vezes os protagonistas de O amor nos tempos do cólera é o Portal dos Escribanos, facilmente reconhecível no Portal dos Dulces, que se vê tão logo se atravessa a muralha debaixo da Torre do Relógio e se cruza a Plaza de los Coches. Ali  fiquei bom tempo, demorando meu olhar sobre os vendedores de almohábanas,  pastelitos de ajonjoli, casadillas de coco, panderitos de yuca, marranitos de leche e caballitos de papaya. Junto a eles fui identificando apregoadores de loterias, comerciantes de artesanato, as palenqueras das frutas. E me pus a relembrar que entre aquela gente toda Fermina fizera a Florentino o gesto negativo que desencadearia novos rumos à existência de ambos. Não muito distante o Calléjon del Candilejo me acenava para o instante em que Florentino esbarrou em Leona Cassiani, que poderia ter sido a mulher de sua vida, se ele não continuasse pensando em Fermina, a mulher de seus sonhos. Que morava no Parque de Los  Evangélios, ou seja, justamente nessa  Plaza de Fernandez de Madrid que agora atravesso e onde entrevejo alguém que é a cara de Don Benito: será que ele vai à igreja de San Pedro Claver, na Bahía de Las Ánimas? 
 
Com tais personagens vou caminhado enquanto passam toctolando as charretes. Entro na que para ao meu lado e sigo até  a Plaza Bolívar, onde desço. Ao avistar o Palácio de La Inquisición tenho certeza de que me encontro defronte do Colégio de La Presentación de la Santíssima Virgem, de onde certa moça fora expulsa por guardar carta de amor. Mais uma estirada e desemboco na Calle Landrinal, estacando diante da Casa de las Ventanas: um  Juvenal Urbino de terno branco  bate à porta. Alguém me convida para tomar um refresco de lulo no Hotel Santa Clara. Aceito e ao chegar pergunto se não fora ali que vivera seus dias atormentados Sierva Maria de Todos Los Ángeles, a menina possuída pelo demônio a quem o padre Cayetano Delaura  fora incumbido de exorcizar e por quem acabou se apaixonando. “É possível”, me diz o guia, “pois aqui outrora existiu o Convento das Clarissas”.  Sentada à mesa uma senhora obesa, figura de Botero,  devora um bombom e me faz lembrar de Bernarda Cabrera, a odiosa mãe  da endemoniada. Saímos e mais adiante meu olhar é atraído por vivenda enorme, na Calle de la Factoría, e me indago se não terá sido esta a mansão do marquês de Casalduero. “Aqui morou outro marquês, Valdehoyos, e foi onde se instalou Simon Bolívar ”, ouço voz atrás de mim dirigindo-se a turistas. Então recupero também esta última cena, descrita em O General em Seu Labirinto.
 
Cenário marcante para narrativas soberbas; reverenciada várias vezes na autobiografia Viver para contar (2002); destacada em alguns episódios de O Outono do Patriarca, Cartagena de Índias foi eleita por Garcia Marquez também como lugar onde construir sua residência colombiana. E é para lá que vou  em outra charrete, com a câmera na mão. Ao descer peço a uma jovem de jaqueta de lince que “me saque una foto, por favor.” Ela gentilmente me fotografa diante da fachada e ao devolver a máquina capto em seu semblante algo da personagem de O avião da bela adormecida, que integra Doze Contos Peregrinos. Seria?!
 
Além dessa fotografia da casa cor de goiaba, trouxe comigo  dias depois muitas imagens deste espaço mais que geográfico e histórico, sobretudo mítico, lúdico e emocional, por integrar o universo da literatura. Nele qualquer itinerário que se cumpra brinda  o leitor com a magia dos mundos recriados pelo ficcionista de talento tão imenso quanto o Mar do Caribe que  embala Cartagena.
 
Quero voltar.
 
 
Sônia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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