“Bafo de Onça” e Jesus Cristo

Por: Paulo Rubens Gimenes

Bêbado como de costume, Mário José – mais conhecido pelo singelo apelido “Bafo de Bode”- mal percebeu a intensa movimentação em Estaca Zero, vilarejo no interior do Piaui.
 
Por sua paisagem árida, Estaca Zero fora escolhida como locação para as filmagens de uma nova versão de “Paixão de Cristo”.  Apesar de estar longe de ser uma produção “hollywoodiana”, as filmagens dos estudantes de Cinema da Capital causaram sensação no povoado.
 
Para adaptar-se ao orçamento curto o diretor optou em filmar primeiro a cena da crucificação e também pelo mesmo motivo o povo de Estaca Zero seriam os cidadãos da antiga Jerusalém; afinal, aquela gente sempre disposta a ajudar trazia no rosto judiado pelo Sol a aparência muito próxima das verdadeiras testemunhas da História.
 
É ai que aparece nosso herói Bafo de Bode; completamente embriagado, não entendeu bem quando lhe colocaram uma saia e um turbante e o encaminharam para junto da multidão.
 
Embora nada entendesse, estava adorando o rebuliço e em coro com a multidão gritava:
 
- Crucifiquem! Crucifiquem!
 
A ‘festa’ estava animada até que Bafo de Bode viu, em meio à multidão, um soldado romano açoitando um pobre coitado que além de apanhar  feito “vaca na horta” ainda carregava uma baita de uma cruz.
 
Bebum é bebum, mas também tem sentimentos. Revoltado com aquela covardia pulou feito um gato no cangote do romano e “cobriu de pancada” o apavorado ator.
 
A multidão, alheia à toda beleza da Sétima Arte, caiu na gargalhada enquanto o diretor desesperado gritava:
 
- Corta! Corta!
 
Bafo de Bode, pensando ser com ele, responde:
 
- Deixa comigo! Me traga uma peixeira que pico este cabra da peste todinho.
 
Dois soldados, de verdade não romanos, agarraram nosso herói e o levaram para o delegado.
 
No meio do caminho o valente Bafo de Bode esbravejava:
 
- Pode me batê, pode me prendê; mas perto de mim ninguém judia do “barbudim”.
 
 
Paulo Rubens Gimenes, Publicitário e ex-conselheiro do Comércio da Franca
 

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