Sabores

Por: Eny Miranda

Quando as águas de março se dispõem a lavar os últimos resquícios do calor infernal e das pesadas colunas de fumaça que pervertem o ar; quando as manhãs e as tardes começam a usar seus mais belos xales de linho ou de chamas, seus véus rendados e suas alaranjadas túnicas de gaze e arminho; quando a vida resolve exalar odores almiscarados, adocicados e frutais, é sinal de que o seio do mundo aos poucos se abre à sensualidade do outono. 
 
Outono é cessão, capitulação, entrega; tempo derradeiro de gozo; deleite. Outonear é render-se à volúpia dos sentidos; engravidar de luz, de cor e de sabor; conceber, desenvolver, amadurecer e parir beleza e delícia. Quando a acepção da palavra calor deixa as colunas de mercúrio dos termômetros e cai nas redes do prazer, pode-se falar em outono. 
 
No outono a vida se derrama: toda a musical elaboração e apresentação do verde e das sedas, na exuberante leveza da primavera, e todo o trabalho pesado do ventre do mundo em sua mais secreta intimidade, durante a seca impiedade do verão, no outono douram e escorrem no ar, nas árvores, nas águas, no chão, ora fogosos, ora doces e olorosos. 
 
Se primavera é um estado de espírito, outono é espírito em estado corpóreo: as etéreas, voláteis meninas de tranças esvoaçando entre asas coloridas e canteiros palpitantes são agora mulheres terrenas colhendo e saboreando frutos maduros; os aromas frescos, nascidos de longínquas águas, agora são cálidas, exóticas, sensuais fragrâncias que vêm de todos os lados, de entre ocres e ouros e vermelhos; e os cantos das águas são sereias nos instigando a beber de sua fonte.
 
O outono bate-nos à porta e, em formas, cores e movimentos apaixonados, nos diz coisas palpáveis, visíveis e sensíveis; cativa-nos; convida-nos a com ele (e nele) outonear.
 
Aceita?
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 
 

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