Carniça

Por: Débora Menegoti

Me  explicava que Kusudama tem um simbolismo bonito. Em forma de bola era utilizado para colocar ervas medicinais ou aromáticas sobre cama dos enfermos. O fio centralizava a energia e suas propriedades medicinais e pelo pompom de espanador, de cortininha, as energias eram dispersas. Foi logo assim que chegay. Assistimos garotas dançando tribal fusion e o incrível contorcionismo do Cirque du Soleil, Zumanity - WaterBowl; coisa linda! Portishead Glory Box Live veio na sequência me fazendo ainda menor. Ela tinha aquela voz gemida rouca e aguda intercalando segurança e força com sensualidade e delicadeza. E assim a noite esticava-se no divã improvisado no vinho, descobrindo dispositivos de leitura, ludibriando a mente... Palavras sobre a pele procuravam, como se possível, trocar uma dor por outra. Queria sentir-me livre. Permiti por alguns instantes. Estive lá, realmente estive lá. Com a força, a fúria de uma paixão instalada no repente de propósito, na marra, na busca não pelo gozo, e sim pelo gosto de estar livre no intervalo bemol. O que atraiu era essa vontade pontual de fazer carinho mais dentro, mais fundo naquela alma de prisma, vontade de segurá-la nas mãos como filhotinho de bicho. De bichinha.
 
Mas eu me atraio mais por baunilhas, né? E daí? Ninguém consegue gz no meu lugar. Nem existe o imaculado nas suas medidas. Como não ser eu??? Sinto-me acorrentada a amarras amargas. Como se estivesse com uma guilhotina prestes a me decapitar, três segundos para arrepender-me de escolhas felizes. Tia Amelinha lá do céu fica triste por dividir cacau e ter andado de braços dados comigo pelo seu jardim enquanto acariciávamos as mãos uma da outra. Gente do bem não faz isso com pessoas do meu tipo. Já era mesmo eu naquela época, em todas as outras eu fui, sempre euzinha, pensadeira. Erradeira. Beijadeira de primas.
 
Mas eu era católica. Me arrependia. Sinto que Deus entende, mas ao redor quase ninguém. Sem diversão íntima dessa vez. Já estou purificada na água benta da minha avó. (Pobrezinha, já tão frágil, eu não devia ser eu), na maçã que ela lavou rezando para me ofertar como simpatia, para ver se o Senhor Deus me dava discernimento ao comê-la.  Ela era suas mãos em orações sussurradas que não tinham fim, a agua densa insistia em escorregar da casca vermelha, dos dedos enrrugadinhos, bonita imagem. Pensei uma música do Philip Glass para aquela cena, Morning Passages. Comi a maçã santa pensando que manga é uma fruta muito mais sexy. Maçã é frígida. Gosto só no mau humor.
 
Não conseguia pensar sequer uma única razão para negar a mim mesma, sou mimada. “Eu quero, eu mereço”, dentro do peito apertando. Pensava pulo ou não pulo? Quase uma síncope, quando vi voava.  O vento forte na cara bagunçava meu cabelo como se andasse de moto ouvindo Dire Straits. Foi muito mais natural do que um suicídio. E mais bonito que aquele do Sigur Ros. 
 
Qual o preço dessa imagem na minha cabeça? Aquele xale furadinho de lantejoulas pequeninas e negras brilhando sobre minha pele nua. Sensação de amor próprio, eu estava Viva. Ressuscitei. Brinquei de coisas santas. 
 
Despedia olhando aquela pele macia na frente do meu carro fazendo gracinhas cabelos bagunçados levantando a saia mostrando com cara de desdém aos faróis de meu carro . Saia poá, batom vermelho, uma foto pra você.  Aroma do Palo Santo queimando. Adoraria que me olhassem além do que querem ver. Veriam até que não sou de todo mal, sou de pouquíssimo mal, aliás, mesmo assim. E todo este teatro não me impressiona, oprime. Mas sei que o caminho mais fácil nem sempre é melhor do que o caminho da dor. Penso nos puros ao modo de Vinicius de Moraes.  Me sinto só e sujinha, descubro outras reinações, pureza, infernos e céus. 
 
 
Débora Menegoti, leitora
 

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