Proust por Raoul Ruiz

Por: Sônia Machiavelli

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“O impossível não é ruiziano”, disse em alusão ao cineasta Raoul Ruiz um crítico francês por ocasião do lançamento do filme O tempo recuperado, a partir da obra de Marcel Proust. Depois das tentativas fracassadas de Visconti  e de Losey; e do fiasco de Volker Schlöndorff  com  Um amor de Swann, pensava-se que nenhum outro diretor contemporâneo tivesse a coragem de encarar o desafio de levar para a tela essa catedral de palavras que é Em busca do tempo perdido. Desde sempre se soube que seria difícil, e para alguns  tarefa impossível, traduzir em profundidade por meio de imagens numa superfície plana, as noções de tempo, duração, memória, emoções e impressões que Proust buscou incansavelmente para sua literatura, à qual dedicou todas as energias de sua vida. 
 
Ruiz aceitou a empreitada, talvez por ter sido devotado leitor do romancista francês desde a adolescência, e um cultor das histórias imortais em seus eternos retornos, estruturadas nos  arcanos da memória com seus dispositivos repetitivos e suas lacunas. Apoiando-se no cenário rigoroso e inventivo de Gilles Taurand, Ruiz optou por um tratamento polifônico que respeitou o aspecto movediço e inexaurível da obra original. Segundo a frase famosa que diz poder-se ler Proust ao infinito porque a sobreposição de sinestesias nunca é percebida da mesma forma,  Ruiz concebeu seu filme como um rico conjunto de imagens e de personagens , objetos e sons que desaparecem para melhor retornar sob formas novas mas reconhecíveis. Cada plano  encobre uma multiplicidade de signos e de sinais, do primeiro ao último momento, e reunidos permitem acordar entre eles personagens, temporalidades e lugares diferentes.
 
Acolhida com pompa no Festival de Cannes em 1999, a transposição da literatura proustiana para a tela foi elogiada  pela maioria dos críticos. O do Le Monde  lembrou que “desde as primeiras sequências, percebe-se que Ruiz encontrou a solução miraculosa graças a uma aguda percepção do que seja cinema”; o do L’Express reconheceu que o diretor “resolveu uma equação que se mostrava insolúvel’; o do La Croix disse  que o filme ajudava a compreender o romance e sugeriu que o festival instituísse um “Prêmio de Melhor Harmonia entre a obra transposta e sua transposição”.
 
Exageros à parte, até porque o público não chancelou todas estas opiniões, há que se lembrar que o sentido do filme se intensifica quando o espectador leu o romance .  Se ele sabe quem foi Madame Verdurin (Marie-Claire Pisier),  Odette de Crécy (Cathérine Deneuve), Gilberte (Emmanuelle Béart),  Albertine (Chiara Mastroianni), o Barão de Charlus (John Malcovich), Morel (Vincent Perez)  e Saint-Loup (Pascal Greggory), só para citar  alguns, abraçará  a história de um jeito. Caso contrário, “o filme será um mistério mas é exatamente isso o que deve ser” como diz Anthony Lane, crítico do The New Yorker, para concluir que “Ruiz incita, confunde e impressiona, como se estivesse dando uma festança, repleta de segredos revelados : você se mistura com o filme, escuta conversas, mas não fica sabendo nem metade da vida desses esnobes incautos imaculados, loucos por amor, e acaba vigorando o princípio proustiano segundo o qual ninguém pode ser conhecido, ou amado, a não ser em fragmentos- aqueles únicos e inigualáveis acontecimentos da existência.”
 
Os efeitos do tempo e os caprichos da memória são transportados cinematograficamente de maneira muito eficaz, porque o espectador pode senti-los instantaneamente  e então compreender melhor as experiências do protagonista. É o caso do rosto de Gilberte, que  o narrador enxerga de repente como se fosse o da mãe da moça, Odette. Quanto aos célebres odores e sabores, impossíveis de serem levados à tela, são substituídos por sons, de que é exemplar o ruído da colher contra a porcelana para criar um dos muitos efeitos que Ruiz consegue reproduzir: a lembrança de um momento que parecia enterrado no passado, quando o menino Marcel ouviu dentro de um trem ruído semelhante oriundo do bater de um martelinho contra peça de metal que está sendo consertada. 
 
A beleza mobiliza emoções e, sob este aspecto, O Tempo Redescoberto é um lindo e estimulante exercício de plasticidade a cada segundo. Só por isso já valeria  a pena ser visto. Foi o que conclui depois de assistir ao DVD, presente da amiga de décadas, Maria Rita Liporoni Toledo, a quem agradeço. 
 
 
RAOUL RUIZ
 
O diretor. 
 
Para facilitar a pronúncia, ao se exilar na França  em 1974, logo depois do golpe militar que depôs o presidente Salvador Allende (1908-1973), o chileno  Ruiz (1941-2011) acrescentou a seu prenome a vogal o: ficou Raoul.  Como Raoul Ruiz ele continuou na Europa a carreira interrompida com a trágica deposição do presidente do Chile. Fora conselheiro cinematográfico em seu país e havia realizado um longa em 1968, Três tristes tigres, que  lhe garantira o Leopardo de Ouro de melhor filme no Festival de Locarno, na Suíça. 
 
Mas foi na França, onde o receberam com alegria os artistas, que sua carreira deslanchou. Como diretor da Casa de Cultura do Havre, no norte do país, conquistou a confiança do ministro da Cultura e  pode buscar recursos para a produção de filmes como A vocação suspensa (1977) e A hipótese do quadro roubado (1979), aos quais se seguiu um relato surrealista- As três coroas do marinheiro (1983). O  estilo definido pela estética mostrou sempre universos singulares a partir de temáticas de abordagem requintada. Em 1996 produziu Três vidas e uma só morte; no ano seguinte, Genealogias de um crime; em 2010, Mistérios de Lisboa; em 2012, Linhas de Wellington, que foi concluído por sua mulher, Valéria Sarmiento depois de sua morte. 
 
Em maio de 1999, prestes a lançar o filme aqui resenhado, disse a Les Inrockuptibles: “quando lemos Proust, logo caímos sob seu encanto. Não nos perguntamos do que fala, mas o lemos, seguimos uma música... Continuamos a ler, mesmo se não estamos ali. Porque não estamos em lugar nenhum, porque a estrutura de frases é desequilibrada... São frases sem centro, é um romance sem centro, sem trama, sem nó dramático. É um romance aristotélico por definição.” O mesmo se poderia dizer do filme assinado por ele:  anti-enredo, anti-linearidade, anti-episódico. Como a vida real, onde os fatos ocorrem ao mesmo tempo, sem pedirem licença uns aos outros.(SM)
 
Título: O tempo redescoberto
Diretor: Raoul Ruiz
Ano: 1999
Lançamento no Brasil: Coleção Folha/Grandes livros no cinema/2001
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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