A dois

Por: Vanessa Maranha

“Solidão a dois de dia/Faz calor/
Depois faz frio”,
Cazuza

 
Lauro não diz. Está distraído com o celular, rolando a tela em espionagem à vida alheia, perscrutando gente que tão desbragadamente se diverte, gente permanentemente feliz, névoa alguma, suas fotos em recortes precisos, dentes à mostra, alto astral, nenhum negativo aparente e, por isso mesmo, na insistência, pela tentativa de persuasão no seu oposto, sim, tão visível. De todo mundo, ali, escancarado, nenhum cansaço. É proibido ser triste.
 
Ana observa o marido. Invejoso, quase pronuncia. Ele, sem tirar os olhos da telinha, pergunta das crianças. Ela responde que dormirão na casa da avó porque o avô viajou... e ela não sustenta a solidão, acrescenta ainda, mas ele não ouve.
 
Começa a récita, o mantra diário, repetitivo, das dificuldades na empresa, do mercado oscilante, perigos à espreita. Ana não ouve. Pensa em florestas, praias desertas; elfos e luminares da Escandinávia que já abriu mão de conhecer, porque pouquíssimo anda desejando.
 
Lauro levanta uma sobrancelha em sua direção e, na sequência, pergunta o que se jantará hoje nessa casa. Ana diz que não sabe. Ele pousa o dispositivo sobre o sofá e a encara.
 
-Estou cansada, ela resume, e vai para o banheiro. Olha-se no espelho. Tem um rosto levemente caído, os cantos da boca arqueados para baixo, uma sombra de  desapontamento crônico. A pele ao redor dos olhos insinua sinais de rachadura, esse craquelado que o tempo projeta implacavelmente na nossa cara. As olheiras num ar soturno, magapatalógico.
 
Abre a torneira da pia, dessa vez não se distrai com o contorno do espelho, banheiro tão bonito, pedras italianas polidas no chão, revestimento vitrificado, brilhante, limpo, gosta dessa limpeza clareadora, mas agora, não olha para nada disso. Somente para esse novo e surpreendente e estranho rosto, sua carne exausta, sua pele e cabelos perdendo o viço daquilo que pulsa. 
 
Ouviu do corredor a voz de Lauro, mas só compreendeu a última palavra da frase ansiosa e algo raivosa que ele dizia: sushi. Ele deve ter pedido isso para o jantar, ou pedirá, o que importa, se fome, no sentido mais amplo desse significado, era o que Ana agora não tinha. Presumira-se mais capaz, mais fibrosa, em maiores sustentações do que de fato era? 
 
A água escorria como um grosso cordão cintilante e fresco. Espalmou as mãos e a jogou no rosto. Olhou-se novamente, as faces molhadas, gotículas reluzindo como se lágrimas, as que há tanto tempo guardava, secas por dentro.
 
Sentou-se no chão gelado, os braços apoiados nos joelhos, tinha uma perplexidade parada. Ouviu o marido praguejar qualquer coisa, era um reclamão mesmo, um auto-justificador, um acusador abrutalhado. Talvez maldissesse os tostões que desembolsava pelo jantar que afinal deveria ser uma obrigação da mulher e pelo qual – bem seria capaz de quase dizer – ela então devesse pagar, já que estava can-sa-da.
 
Mas podia estar brigando com o controle remoto do ar condicionado ou com o sinal da TV a cabo ou qualquer miudeza insignificante, infernal repetição. Ana saiu de si por um instante e de novo mirou as pastilhas tão belas desse seu banheiro, a sua casa erguida em detalhes para uma vida-enfim-feliz, mas a sensação sobreposta era a de engodo, mal entendido, algo como: não-é-bem-assim-como-eu-pensava-que-deveria-ou-poderia-ser. Palmilhar os vinte, os trinta anos e cair num vácuo desses. Ser de súbito e inadvertidamente tragada de volta a si. Negar-se a.
 
Tomou um banho e já de pijama, nenhuma sensualidade, seguiu para o quarto da filha, onde dormiria sem a obrigação de olhar a cara daquele ali, ouvir-lhe as queixas, fugir do seu corpo e seus modos pastosos. A cabeça em branco, era voltar a ser Ana. E não saber mais quem poderia ser essa tal, como se houvesse se abandonado, descarrilada no final da adolescência e, adormecida, chegasse até aqui, uma desconhecida.
 
À porta ele chamou, um tom de preocupação na voz:
 
- Ana, venha cá. O que está havendo?
 
Ela respirou fundo.
 
-Vou ficar aqui mesmo. 
 
Quero paz.
 
-Quer conversar?
 
-Não.
 
Não agora. 
 
Não mais, pensou. Anos provocando uma conversa sempre desviada e vem você agora querendo discutir o que nem sei mais? Não.
 
Lauro comeu no prato plástico-delivery diante da TV, sem palitos, a refeição gelada. Gostava dos rolinhos menos japoneses, com maionese e manga, sem peixe cru. Considerava peixe cru, aliás, algo hediondo, a não se pôr para dentro. O agudo cheiro de mulher.
 
Quando, percorrendo canais de TV, nenhum mais despertou interesse, pensou em Ana, exilada no quarto da filha. Que talvez nunca viesse a compreendê-la. Nem mesmo as teorias selvagens das quais era adepto davam conta de decifrá-la.
 
Concordava, contudo, com um filósofo cujo nome não se lembrava. Ele preconizava a ideia da mulher carregar em si uma fera dormente que uma vez ao mês, ou conforme as volutas lunares, se desencadeia do remoto centro onde ressona e a ataca por dentro, fazendo-a enlouquecida.
 
Não concebia que se pudesse oscilar tanto,  nenhuma objetividade, sempre um pé de guerra, arrastando a vida tão pesadamente, nada saciada. Pensava que não pudesse ter sossego uma pessoa que tem um rasgo, ferida aberta em si.
 
Várias vezes se perguntara por que continuava, por que se calava, como abrira mão de possibilidades em troca de uma vida assim. É que, verdade encoberta, nunca fora de bravatas, tampouco executara ousadias. Narrava histórias desejadas como se vividas, mas pouco se misturava ao mundo.
 
Os seus filhos lhe pareciam estridentes demais, a mulher, quase sempre, sem alcance. Será que a conhecia mesmo? Mas havia mais em que pensar. O seu imediato, Sávio, sub-reptício, cavando promoção na empresa às suas custas, sob as suas barbas. O ambiente corporativo hostil como selva, a todo momento, uma tocaia iminente.
 
Checava as conexões sociais entre os seus possíveis inimigos, não se deixaria abater assim tão facilmente. O inimigo espreitando por todos os lados e nem em casa um remanso. Essa mulher estranha. Pessoa feito ilha. Permanentemente cansada, agora mais essa. A mulher inimiga também? Empunhou o celular e nele se perdeu, dissipou-se de Laura. O Mauricio ostentando na rede os dois filhos que seriam jogadores de futebol. O Joaquim num barco na Polinésia. A grande família do Julião, seus retratos felizes à mesa. O Mário com a namorada linda e jovem ao lado de uma gigantesca flor metalizada em Buenos Aires, depois, London Eye, após, num fiorde islandês.
 
E ele afundado no sofá de todos os dias, naquela casa recém-construída, muito sem ninguém. Foi ao uísque, era sempre tranco bom antes do sono. Içava-o de volta ao lugar, se estivesse perdido, ou o mandava para longe, se a circunstância fosse dolorosa. Pensou ainda que não se vive assim tão aparentemente acompanhado. Rolou mais um pouco a tela do aparelho, farto de bisbilhotar o mundos não-seus, para ele tão irreais quanto ilusórios, as vidas outras que o transformavam, à sua revelia, num cobiçador contumaz, esse voyeur, e, portanto, num queixoso. Verdade é que não fora desenhado ao carisma. Não se fizera às grandes alegrias e nisso havia contato e identificação com Ana. Ela também não.
 
 
Vanessa Maranha, Psicóloga, jornalista, escritora, autora de As Coisas da Vida e Cadernos Vermelhos

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