Lua...Luas!

Por: Eny Miranda

Fui ao quarto pegar uma toalha de banho, e já ia acender a luz quando, através da janela, vi a Lua, sorriso aberto no breu. Não estava inteira, nem precisava estar, parecia bem maior do que habitualmente se mostra nessa fase. Era uma boca, assim mesmo, do jeito que são as bocas sorrindo: lasca arqueada de espelho, entreaberta em muitos reflexos e sentidos - doação de luz, por alegria ou benevolência; exposição de brilho, por ironia ou conveniência. No momento, sorria para mim e para o mundo, confiante e generosa, dentes alvíssimos, aguçando-me olhos, memória e imaginação. Símbolo do princípio feminino, da periodicidade, da renovação, estava em fase decrescente, trilha de ocaso que pressupõe renascimento. Era sinal de vida na imensidade da morte. 
 
Mirei-me e refleti-me em seu momento.
 
Aquela é a mesma lua de minha infância, a das noites em que, faltasse por algum motivo energia elétrica no bairro, corríamos, meu irmão e eu, para o jardim ou para o quintal, alvoroçados, a brincar com nossas sombras moventes e a pular as das folhas que, tocadas pela brisa, se deslocavam no chão; a tentar adivinhar cores, na quase monocromia do jardim; a buscar frutas maduras, escondidas nos galhos mais baixos das árvores; a rir risos abertos; a enxergar a face luminosa da noite em seus contornos, ao mesmo tempo nítidos e obscuros. Naquela época, tínhamos pai e mãe, e a sensação de ser por eles protegidos de qualquer perigo. Tínhamos a alegria e a confiança simples que cercam a inocência. Nossos olhos eram luas cheias, e nossos sorrisos, luas novas.  A vida não tinha mapas nem destino traçados. Era só uma fase, o momento, e o momento era crescente.
 
Hoje infiro que aquela era também a mesma lua das civilizações nascentes, das noites claras nos campos promissores da Mesopotâmia e nas águas do Tigre e do Eufrates; a mesma helênica ou esfíngica lua de marmóreos ou pétreos templos gregos e egípcios. E que esta lua, agora em fase de quase naufrágio, dentre tantos outros naufrágios ao longo dos tempos, sorri porque sabe da próxima emersão. 
 
Olho aquele simbólico rasgo de luz no céu e a mim mesma, a refleti-la, aqui na Terra. Ambas, a lua sorridente e eu pensativa, outoneamos neste momento, como igualmente outoneia o nosso hemisfério. Vivemos uma fase, um ciclo da grande metamorfose universal. Ela e o outono, certos de que renascerão - como vêm fazendo há milênios - em luas novas e primaveras. Eu, sem saber se sou lua ou estação (ou mesmo borboleta em fase evolutiva), procuro sair desse transe, desse campo magnético e imagético. 
 
Acendo a luz do quarto e pego a toalha; deixo-me banhar nas águas a mim concedidas pelo chuveiro (pequeno ritual de renascimento) e me envolver na branca maciez felpuda que me protege a pele do frio outonal. Sorrindo, descubro que, por alguns instantes, sou lua nova de outono.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 

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