Dinha

Por: Débora Menegoti

Há sempre certa embriaguez em caminhar lado a lado, braços dados com aquela prima, madrinha de batismo inventado, tia-mãe por promoção intima de afeto familiar.
 
O relógio gritava as horas apressado, esquecido, emudecido na bolsa; minha filha cantava ‘História De Uma Gata’ no banho ou assistia a um desenho na TV. A tia mãe segurava minha mão em concha e acariciava como se lustrasse um tesouro, luxo puro. 
 
Passarinhando em volta da casa a passos de tartaruga. Ela com sua voz serena doava-se de alma e misturava orações entrecortando frases. Bálsamo para amores dilacerantes, espinhos da vida, durezas familiares... Tudo virava espuma fofa de tanquinho depois de amassarem juntas, com direito a cafés, pães de queijo e às vezes até um pão de água caseirinho. 
 
Cachorros, coelhos, galinhas, plantinhas... Tudo transbordava alegria e harmonia. 
 
Os primos se pegavam com o pai a brincarem de lutinha. Pai, amigo e senhor da família, exemplo de sabedoria, paciência e humildade mostrava que é preciso pouco para construir uma fortaleza. O que a gente mais precisa é um pouco de transpiração e de honestidade.
 
Aquela tia, amiga, mãe, fazia um cafunezinho assim coçadinho e adorava tirar as lêndeas, os piolhos... Ver os seus limpinhos. Fazia questão de demonstrar seu amor, sobrando um tostão ou não, dava seus ‘pulinhos’ para presentear alguém querido de forma encantadora.
 
Vejo essa mulher pequena e fofa, de barriga molhada, pessoa simples e geniosa, sempre cheirosinha, andando com seus pezinhos 35 nos chinelos 44, prescrevendo as receitas naturais de seu pai (meu Nino, tio- avô- menino), expandir capacidade de perdão, de amor, cuidado... Ensinando no brilho dos olhos e no seu sorrisão tão sincero, que não há neste mundo nada mais precioso do que os laços que construímos ao nosso modo de amar.  Quanto amor é possível caber em singelos atos? Quantos pães quentinhos vale uma botinha usada? Um sabonete, um sorvete, uma roupa cheirosinha, um sonho de adoção? Quanto vale cantar junto, chorar e rir, salvar vidas?
 
 
Débora Menegoti, leitora

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