Em busca do ouro

Por: Sônia Machiavelli

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A América foi povoada há 20 mil anos por caçadores e coletores chegados de alguma parte do Velho Mundo. Com o tempo, desenvolveram a agricultura, trabalharam a argila, viveram em aldeias e cidades. A metalurgia, descoberta no Equador e no Peru por volta de 1500 antes de nossa era, expandiu-se até o norte e chegou à costa sul da Colômbia, em primeiro lugar, e depois ao resto do vasto território. Desde 500 anos antes de Cristo, até a conquista espanhola no século XVI, o trabalho com os metais floresceu na área andina e nos litorais colombianos. Exibiu mais de duzentos estilos diferentes que, desenvolvidos por numerosas sociedades, permitiram a elaboração de milhares de objetos com formatos  e técnicas distintas na exploração das possibilidades do ouro, da prata, do cobre. 
 
A atividade tornou-se comum entre as sociedades com líderes políticos e religiosos permanentes que governavam grupos de aldeias. Sem representarem estados propriamente ditos, essas lideranças alimentaram sua numerosa população com agricultura eficiente, centrada  no cultivo do milho e da mandioca e com  recursos buscados na caça e na peça. Sem guerras e graças aos excedentes de alimentos, sobrou tempo para a arte. Grupos  com talento e maiores privilégios puderam se dedicar a atividades especializadas como a ourivesaria. 
 
Esta sempre esteve a serviço dos governantes, que usavam grandes adornos para reforçar seu prestígio e tornar visível sua autoridade. De caráter religioso e simbólico, objetos sagrados expressavam complexa filosofia que tratava da origem do mundo e da humanidade, explicava o futuro  do universo e justificava as relações naturais e sociais. Mas as pessoas comuns também usavam  o metal para fazer seus enfeites, fabricar  ferramentas de muita utilidade na vida cotidiana e modelar oferendas entregues aos deuses em rituais, em troca do equilíbrio do cosmos. 
 
Os europeus chegados a partir de 1492, vislumbraram logo que as sociedades que ali haviam se erguido eram detentoras de saber e riqueza surpreendentes. As peças em ouro, algumas com incrustações de esmeraldas, não só representavam tesouros como também revelavam a diversidade dos grupos humanos que tinham vivido, trabalhado e criado naqueles espaços durante milênios. Técnica aprimorada obtinha efeitos maravilhosos de filigrana usando cera de abelha como molde para o ouro líquido.
 
É esse conhecimento de alto nível que o  livro Museu del  Oro / Bogotá, Colômbia mostra aos leitores em fotos espetaculares e textos consistentes. A cada página, uma surpresa: peitorais de ouro maciço;  narigueiras, orelheiras e brincos com motivos de aves, felinos, anfíbios, macacos, peixes; objetos  utilitários também com imagens zoomórficas; colares de contas de conchas intercaladas de coral ou esmeraldas; espelhos em pirita de ferro; vasilhas com decoração geométrica ou figuras antropomórficas; máscaras com cabeça de jaguar; anzóis de vários tamanhos; carimbos para pinturas corporais; descamadores de peixe; diademas filigranados;  cenas familiares protegidas em caixas...E os curiosos palitos de cal, de cabos muito trabalhados, que lembram espetos de todos os tamanhos e cuja ponta era usada para pinçar e levar à boca a cal a ser misturada a folhas moídas de coca.  Tudo em ouro.
 
Observando o reluzente conjunto de centenas de peças, tesouro de valor inestimável, veio-me à mente o mito da cidade do ouro, lugar que a floresta escondia e nunca foi encontrado porque era apenas sonho criado pela imaginação a partir da abundância do metal que cumpria um ciclo mágico. Retirado das montanhas ou das águas- e neste segundo caso acreditava-se  que as pepitas eram o sêmen do Sol para fertilizar a Terra-  o ouro transformava-se  em imagens, adornos e objetos vários  que eram destinados   ao solo e às lagoas, em oferendas aos deuses que acabavam por recambiá-las em forma de bênçãos. O ouro era extraído, trabalhado, usado e oferecido – para voltar à terra. 
 
Em busca do Eldorado, milhares deixaram civilização e conforto e se internaram na selva, escrevendo um capítulo febril da história da exploração do Novo Mundo. 
 
Quando fixamos o olhar nas joias exibidas nas páginas do livro belo e importante, até entendemos que os espanhóis tenham mesmo acreditado numa cidade onde até as fachadas das casas eram banhadas a ouro. E que por ela tenham perdido a vida.
 
 
FATOS E FOTOS
 
Trabalho de equipe. 
 
O livro Museo del Oro, patrocinado pelo Banco De La República de Bogotá, traz imagens do Museo del Oro, instalado na capital da Colômbia e considerado no seu gênero o maior e mais importante do mundo. Com edição primorosa, todo em papel couché,  traz  fotos assinadas por profissionais expressivos como Rudolf Schrimpff e Pablo Obando, textos impecáveis de historiadores  como Clara Isabel Botero Cuevos e Sandra Patrícia Mendoza Vargas, pesquisas aprofundadas  de Jimena Lobo Guerrero  e mais uma grande equipe de apoio. 
 
O museu tem por objetivos “preservar, investigar, divulgar e exibir uma das mais importantes coleções de metalurgia pré- hispânica do mundo”, lê-se na orelha.  Ao longo de uma história que remonta ao ano 1939, a instituição se converteu em um emblema da memória cultural da Colômbia. Chegou aos nossos dias num edifício ampliado  e com uma montagem contemporânea. O livro, que pode ser definido como um guia de visita, reflete a forma como os curadores organizaram a exposição de joias e objetos de ouro que vão do ano 500 a.C até a data do descobrimento da América. A proposta de uma nova narração do ciclo da metalurgia antiga na Colômbia passa por quatro salas de exposição permanente: O trabalho dos metais; A gente e o ouro na Colômbia pré-hispânica; Cosmologia e Simbolismo; A Oferenda.
 
Centro cultural cuja essência, razão de ser e fundamento são as exibições e a programação, o museu também é um centro de investigação e de interação acadêmica, de divulgação, de cooperação. O conteúdo do livro, organizado de maneira similar ao museu, aprofunda os temas das coleções expostas. 
 
Antes da visita, permite conhecer mais sobre o museu e suas coleções. Dentro dele, orienta o visitante no seu percurso. Depois, acompanha suas lembranças, convidando-o a regressar mais uma vez. Ou outras vezes. A sedução do ouro persiste. (SM)
 
 
Livro
Título: Museo del Oro 
Diretor: Banco la Republica
Ano: 2011
Informações: www.banrepcultural.org
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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