O poeta Menotti del Picchia

Por: Caio Porfirio

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Eu o conhecia de encontros rápidos, quando ele comparecia a eventos na sede da UBE. Troca carinhosa de palavras e um respeito quase religioso de minha parte para com aquela figura que era uma legenda nacional. 
 
Um dia ele me aparece na secretaria da entidade e me pergunta se eu poderia aposentá-lo como escritor. Soubera que eu andara conseguindo isto para outros com sucesso. Uns seguiam-se aos outros. 
 
Foi a primeira conversa longa que mantive com o poeta. Foi meu primeiro contato direto com aquela criatura humaníssima. E foi, a partir de então, um nunca acabar e idas e vindas, eu e ele, por repartições, corredores e filas do INSS. 
 
Uma jovialidade, apesar dos seus quase oitenta anos, que eu invejava.
 
Certa vez, na fila enorme, que não andava nunca, na repartição do INSS, à Rua Martins Fontes, à espera de uma nova carteira de trabalho, aproximou-se de nós um funcionário e mostrou-se pouco cortês, examinando papéis: “ O senhor não tem um cartório?”  “ Tenho.” “E para que quer se aposentar como escritor?” 
 
Menotti abriu o riso, um riso meio irônico: “ Meu filho, quem tem direito a esse dinheiro da aposentadoria, eu ou o governo?”  “Bem ...”  “ Bem ou mal, meu filho, o dinheiro é meu. Por isto trate de desembaraçar os meus papéis, porque vim buscar só o que me pertence.”
 
O rapaz saiu murcho e eu me virei: “Menotti, o cartório não está com o seu filho?” “Caio, vou lá dar explicações a esse rapaz? O dinheiro não é meu? Acabou.”
 
Nessa mesma repartição, outra ocasião, um calor dos diabos, gente que não acabava mais, alguém gritou:  “Paulo Menotti Del Picchia!”.
 
Aproximamo-nos. O funcionário pediu que o seguíssemos. Abriu uma porta: “ O chefe quer falar com o senhor.”
 
Entramos na sala. Veio lá de trás de uma carteira larga um homem robusto e curioso: “Mas o senhor é mesmo o poeta Menotti?” “Sou”.
 
O homem afligia-se: “Venha, venha, doutor Menotti. Sente-se aqui. Não precisava o senhor ficar na fila”.
 
Chamou alguém, quase aos berros. Aproximou-se uma moça e ele ordenou que tudo fosse desembaraçado imediatamente. Insistia, áspero: “Logo, ouviu? Logo. “
 
E voltava a lamentar: “Mas o senhor na fila... no meio dessa multidão...”
 
E Menotti: “E onde eu deveria ficar?”
 
O chefe curvou-se sobre a mesa, olhou os outros funcionários que trabalhavam, sussurrou: “ Posso dizer uma coisa para o senhor?”
 
Menotti até se espantou: “Claro.”
 
E o homem, voz trêmula, declamou baixinho um trecho do Juca Mulato, poema de Menotti, que ouviu calado e risonho, os olhos buliçosos por trás dos óculos traduzindo uma incontida emoção.
 
E assim acontecia. Quando ninguém o identificava, esperava e esperava beneditinamente nas filas. Quando era descoberto por algum funcionário do INSS, o que acontecia frequentemente, tudo corria fácil, vinha até cafezinho. E Menotti não se alterava, aceitava tudo com a maior paciência e bonomia. Mas eu aprendi a lição. Era entrar numa fila, eu me aproximava do balcão:  “Quero falar com o chefe da seção. É muito importante.”
 
Ele vinha ou me chamava e eu me valia da arma poderosa: “Está aí o poeta Menotti Del Picchia. Será que podia ...”
 
A resposta vinha logo: “Mas claro. Cadê ele?”
 
O poeta não se valia do seu cartaz. Valia-me eu do cartaz dele. 
 
No dia em que recebeu o documento final de aposentado, pegou-me no braço e falou-me ao ouvido: “Vou lhe gratificar bem.”
 
Falei que não precisava, era trabalho da UBE.  Eu receberia, quando muito, uma garrafa de uísque. Mas Menotti, para minha surpresa, mostrava-se bem informado: “O Judas Isgorogota lhe deu uísque, não foi? Maria José Dupré vai lhe dar um presente”.
 
A certa altura, a escritora Maria José Dupré juntou-se ao Menotti e eu aposentei os dois. 
 
E uma tarde ele entrou na secretaria da UBE e me entregou um envelope: “Tome. Abra depois.”
 
Conversou uma eternidade. E eu louco para abrir o envelope.
 
Foi ele sair e eu rasgá-lo. Lá estavam uma carta carinhosa, pouco mais que um bilhete, com as palavras mais doces e amigas que já recebi na vida, e um cheque de valor tão inesperado que arregalei os olhos e caí na cadeira, surpreso.
 
Foi a única vez que recebi dinheiro por esse meu trabalho. 
 
Esse belo poeta, figura de destaque entre os organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, e essa grande criatura humana, deixou-nos em 1988, aos noventa e seis anos de idade. 
 
 
Caio Porfirio, escritor,  crítico literário, secretário administrativo da União Brasileira de Escritores, ganhador do Prêmio Jabuti

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