Esperteza

Por: José Borges da Silva

Há alguns anos um amigo me contou que quando era criança, na vizinha cidade de Claraval, costumava haver hordas de moleques vagando pelas ruas, brincando, brigando, fazendo desordens.  
 
E para ilustrar esse seu tempo de infância, o amigo  me contou uma história interessante, que me veio à memória no começo deste mês, quando surgiu na mídia notícias da compra de uma refinaria de petróleo pela Petrobrás, no ano de 2006, situada em Pasadena, no Estado do Texas, nos EUA, com a chancela da então ministra Dilma Roussef. A história contada pelo amigo é interessante porque dá para colher nela traços de comportamento que posteriormente fizeram dele um grande advogado. É a seguinte: em certa ocasião, alguns dias após haver dado uns tapas em um moleque de uma leva rival, que o chamara por apelido de que não gostava, o meu amigo foi visto pelo sujeito e sua turma, em uma praça. Ele estava só, longe de casa e dos amigos. Por isso só lhe restava uma alternativa: correr. E foi o que fez. E o bando saiu alvoroçado à sua caça. Quebrou uma esquina, e outra, e mais outra, para confundir os adversários, até que se escondeu a um lado do caminho e deixou que a trupe passasse correndo. E aí vem o inusitado: saiu c
orrendo atrás do bando, sem que o notassem! Tanto que, a certa altura, já na dianteira na perseguição, incitava a cambada gritando “vamos, pega, não deixa escapar”, etc. 
 
No meio da narrativa ele logo se justificou, ao notar que fiquei meio desajeitado com aquele excesso de esperteza, dizendo que a molecada às vezes se misturava, e havia alguns que pertenciam a mais de uma leva. E como ele fora visto à distância, no início da perseguição, os seus algozes não tiveram certeza se era a ele mesmo que estavam caçando. Como nesse momento já liderava a turma, ele mesmo pôs fim à perseguição com outro golpe de mestre, ao afirmar com veemência: “ele sumiu... Mas não vai ficar assim, não... Uma ora a gente pega esse safado!” 
 
Voltando ao problema da Petrobrás e da compra da refinaria americana, que pelo que li valia 42,5 milhões, e foi comprada pela Petrobrás por 1,2 bilhões de dólares, eu fiquei abismado ao ouvir de pessoas que participaram do negócio, declarações no sentido de serem “as maiores interessadas na investigação de possíveis irregularidades”. Agindo como se não fossem atores no negócio.  Até aí aplicaram a primeira parte do truque de infância do meu amigo. Por isso eu me lembrei da sua história. Mas desta vez, eu é que me senti moleque, ouvindo as declarações. Parece claro que os atores principais da história da refinaria de Pasadena têm certeza de que as investigações, possivelmente liderada por eles mesmos, não chegará a lugar nenhum. Então é só aguardar para que, a certa altura, como o meu amigo, também possam dizer: “Ah, deixa isso pra lá, vá... Um dia a gente pega esses malandros!” Tratam como se tudo fosse meio fantasioso. O problema é que a conotação de fantasia aqui não tem graça nenhuma...
 
 
José Borges da Silva, procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras
 
 

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