De primeiro

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, a Rua Cavalheiro Petráglia tinha só dois quarteirões. Começava na casa do pai do Helinho e ia até a casa do pai do Tusa. Na metade certinha, entre aquelas duas casas, passava a Rua Padre Conrado, compridona, começando lá na venda do Joaquim Balaiero e só terminando lá longe, no Pasto dos Leite.
 
Morei treze anos na Rua Cavalheiro Petráglia que se tornou para  sempre a minha rua. Nela moravam três pessoas importantes: o Dito Cara Suja, jogador do Internacional Futebol Clube; o senhor Zé Galetti, o dono da venda; e o Mazão, moleque famoso por suas brigas e, por isso, respeitado pela molecada, e a quem cabia, por direito por ele próprio estabelecido,  metade de cada picolé comprado a duras penas pelos meninos, no Bar do Sô Alonso, lá perto do Grupo Barão da Franca.
 
Embora chamada de rua, a Cavalheiro Petraglia pouco mais era que estradinha para carroças e caminhões. Seu leito, margeado de um lado pelo mato e do outro pelo esgoto que corria a céu aberto, era para a molecada comprido campo de futebol onde o Diocésio, o Jaime, o Válter, o Totonho,  o Dominguinho, o Baturi, o Rosinha, o Celso Galleti, o Barcelos, eu e mais uma dezena de meninos demos os primeiros chutes numa bola de pano, comemoramos os primeiros gols.
 
Guardo dos vizinhos humildes da minha rua as mais ternas lembranças de solidariedade.
 
M as, daqueles tempos tão duros e tão alegres, resiste em mim uma lembrança espinhosa cujo graveto não se pode extirpar.
 
Ninguém tinha sapato. Íamos à escola, voltávamos da escola correndo descalços. Um dia, um dos amigos, filho do senhor Zé Caneca, cortou o pé em caco de vidro, sua mãe amarrou pano para evitar terra no machucado, ele andou uns dias apoiando-se no calcanhar. Uma noite, passou mal, teve febre, levaram o menino para a Santa Casa, era tarde.
 
- Deu tétano. Depois que dá, não tem cura.
 
E os passos da dor começaram a marcar as ruas de nosso coração.
 
Ali vivi treze excelentes anos, ali aprendi quase tudo que sei de reações humanas, ali construí amizades que perduram. Ali, só enxergava o sol das manhãs.
 
Agora, quando a tarde se aproxima, avalio a quantidade de espinhos e de cacos de vidros pisados por meu pai, por tantos pais, naqueles dias.
 
A neblina teima, vai cobrindo as pessoas, vai cobrinho a minha rua.
 
Teimoso, sopro e grito, tento espantá-la para outros sítios.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 

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