Impossível colo

Por: Mirto Felipim

Hoje amanheci precisando de colo. contudo a dona do colo de que necessito delira entre fagulhas de realidade.
 
continua indo a todos os bailes todas as noites. quando desperta não se lembra dos bailes, mas tem certeza de que foram lindos.
 
ontem, depois de uma noite sem sonhos, agitada durante toda a noite, não dormiu. vagou pela casa, como um sonho sem sono.
 
quando cheguei para visitá-la, ainda agitada, manteve a compostura possível, mas não sorria, vagava o olhar e respondia por monossílabos. 
 
amei-a tão intensamente naquele momento, que cheguei a sentir o peito inútil, pela impossibilidade de fazê-la entender o meu amor.
 
ela estava tão triste, tão triste. tristeza de impotência, de vazio total, prisão física, mental, sem argumentos, inútil de razão absoluta.
 
sentada na cadeira do alpendre, implorava com seu olhar vago uma aprovação para os seus lamentos legítimos e contraditórios.
 
Quando, pela terceira vez, levantei-me para ir embora, reteve minha mão. mandou que sentasse, com a mesma autoridade de quando comandava a casa. sentei-me. pediu, em tom de confessionário, que eu a ouvisse.
 
envolvi novamente suas mãos. olhou-me fundo nos olhos, os dela marejados, e os meus contaminados pelos dela. falou-me de sua angústia, do cárcere diário, em todos os sentidos, e do qual não pode mais se libertar. da impossibilidade de se impor, receber pessoas desejadas, visitá-las ... viver. de sua vontade de abrir o portão e caminhar pelas ruas, fazer compras, tomar decisões, como fazia antes.
 
senti-me horrível, diante também da minha incapacidade de mudar aquela situação. pedi-lhe para rezar e ela respondeu que reza para que Deus a leve.
 
não sei qual dos dois ficou mais triste. beijei-lhe o nariz, como manda nosso código de carinho, acariciei o algodão de seus cabelos e, com as mãos emoldurando o seu rosto, pedi-lhe, idiotamente, que tivesse paciência... sorri o sorriso parvo de filho impotente e fui embora.
 
 
Mirto Felipim, poeta, observador, escritor.
 
 

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