Querida amiga,

Por: Maria Luiza Salomão

Olho no olho, às vezes, faz arder o coração, não é?  Coloca fogo na alma. Freud devia saber o que inventara, ao oferecer o divã: o paciente de costas para ele. Ele e o paciente, cada qual com pensamentos, silêncios e palavras: sem olho no meio.
 
Você é corajosa, poderíamos nos falar, mas você quis por escrito, pausas e consciência, sem derrames. A escrita é ponto a ponto, laço a laço. Nós, mulheres, temos muitos interesses, mas há um que é um eixo em torno do qual tudo o mais gira, e irradia.  O amor, essa historiada coisa. E sua história é delicada e complexa. 
 
Sua vida é organizada, nos conformes, mas...sempre o mas em qualquer história...Mas não está satisfeita! Ninguém está. Uma vez, alguém me disse, que existia uma pessoa sem rima com o resto de sua vida.  Tudo dentro dos trilhos, até o surgimento dessa pessoa. Ela criou uma metáfora: aquele um era o dente torto na engrenagem do que vivia. Digamos, o dente errava, mas não desandava o mecanismo todo e não permitia que tudo funcionasse lisinho, redondo, desde então.
 
Ela não se via mais sem o dente, peça fora do tempo e lugar da sua pacata lucidez. O dente que não se encaixava, mas era agora ela, sombra da  sua vidinha, de família como se fosse... 
 
Será que na sua história, amiga, tem um dente assim? Que dói? Dói! Que atrapalha? Atrapalha! Mas...gostaria de tirar o dente da engrenagem? Não. Paradoxo.
 
O tal dente não se explica, não sabota. Mas descompensa, tira tudo do lugar, fabrica tempos outros e desvios. O dente pode ser fantasia, delírio, o para não dar certo.  O que fazer? 
 
- Não há o que fazer. 
 
Ele não pode ser descartado. Esse dente é - talvez: a sua humanidade. Aquele defeito; aquela pinta; o dedo torto; aquele nariz grande; a boca fina; aquele cabelo que não se ajeita; andar desengonçado; a secura no falar, que só você. Se abrir mão dele a beleza (só sua) não se realiza: a beleza no imperfeito, nas pontas soltas, nas arestas, mistério do dente. 
 
Dente-amuleto, do qual não quer se livrar. Se “viver é perigoso”, quem sabe não é por um dente assim, que não a deixa morta em vida? 
 
Fique firme, defenda seu quinhão de desassossego: você não é sozinha no estranho desejo de ter um só seu, secreto. Beijos, valente amiga.    
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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