Águas

Por: Eny Miranda

Recebi esta semana o convite de um amigo. “Aniversário da minha querida Mãezinha”, dizia, exibindo, além de palavras afetuosas, poeticamente dispostas na folha, e dados sobre local e data da comemoração, a foto de uma senhora de cabelos brancos, pele rosada, simpático ar de sorriso, e olhos muito vivos. À primeira vista, um convite de aniversário como muitos outros, gentilmente enviado aos amigos pelo filho amoroso, desejoso de, com eles, partilhar um dia especial. À leitura mais atenta, contudo, revela-se ali um tesouro, uma raridade: não se trata de convite para um simples aniversário, mas para o privilegiado marco de uma centena deles. D. Nair, a Mãezinha, celebra seu centenário, e, detalhe ainda mais especial: absolutamente lúcida.
 
Provar o gostinho do centésimo ano de vida com lucidez é bênção para poucas pessoas, não só por se tratar de um fato raro, mas também por simbolizar uma conquista: a vitória da vulnerabilidade sobre a força; o triunfo dessa obra complexa, delicada e bela, chamada ser humano, sobre as duras e cruas adversidades da vida, e sobre os desgastes naturais a ela impostos pelo tempo. E como a vida não nos oferece apenas adversidades, e o tempo desgastes, completar cem anos com lucidez significa, acima de tudo, ter vivido cada beleza de cada dia, durante um século, e ter permanecido consciente de que viveu tais cotidianas belezas; significa conhecer o acervo raro que possui e a possibilidade de partilhá-lo com os seus queridos.
 
D. Nair pode, ainda hoje, como fez Saramago, puxar “do novelo emaranhado da memória”, “um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, [que] tem a macieza quente do lodo vivo.” Pode descobrir que esse líquido fio é um rio que há cem anos lhe corre nas mãos e lhe passa “entre as palmas abertas”; atravessa seu corpo e se confunde com ele. Pode ainda sentir na carne a força, a luz e a doçura das águas desse rio, e no sangue a ágil leveza de seus peixes. Pode ouvir o canto dos pássaros que pousam nos grandes verdes galhos que sobre ele se debruçam. E saber que com ele seguirá. Sempre em frente. 
 
Vi-a uma ou duas vezes, face rosada e olhos muito azuis que se impregnaram em mim com a simplicidade do que é naturalmente simples, e o sabor das gostosuras que, todos diziam, só ela sabia preparar. É o que acontece com as pessoas puras, que entram em nós sem prévios anúncios, sem pedir licença (nem necessitar dela).
 
A mim agora me foi dada a alegria de dizer a este amigo, compreensivelmente orgulhoso da Mãezinha Centenária, que compartilho sua emoção, e saúdo suas vivas, lúcidas águas de origem.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista

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