Sobre marinheiros

Por: Isabel Fogaça

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Antes de um marinheiro se contemplar como marinheiro, ele veste um roupão de carne frágil cuidadosamente zelado pela possibilidade de futuras cicatrizes. Carrega um coração como amuleto disponível a mil amores ou quantos o roupão de carne permitir ou durar. Este marinheiro, especificamente, antes de assumir a condição de ser, foi humano.
 
Velejando sob o sol escaldante, o marinheiro estava seguro apenas pelo seu lenço azul que sugava as gotas de suor que viajavam pelo seu corpo. Tinha uma mulata ao seu lado, que cozinhava absurdamente bem. Uma faca extremamente amolada, e com as próprias mãos, tatuou seu nome em letras bonitas na madeira de seu precioso barco, mas apesar de tudo que tinha, tudo ainda não era suficiente.
 
Então, como solução precipitada, naquela sexta-feira, o marinheiro foi à procura de um aprendiz que fosse tão competitivo e decidido quanto ele. Sentou no balcão do bar que sempre visitava e pediu que trouxessem pinga com refrigerante, enquanto observava os meninos à sua volta. Todos desinteressantes, pensou. Até que misteriosamente um maço de cigarros caiu no chão, e um menino com vergonha, se abaixou para pegar.
 
“Não são meus, são do dono do bar.” Disse o menino, reparando os pés do marinheiro.
 
“Sente-se e tome uma cerveja. Se tiver amigos, traga-os.” Respondeu o marinheiro como se realmente acreditasse que os cigarros não fossem do menino. 
 
O rapaz chamou dois amigos, sentaram-se à mesa e tomaram algumas cervejas. O marinheiro investigava a condição de cada um dentro de cada gole de álcool, meticulosamente jogava moedas pagando mais bebida enquanto continuava no seu plano de observação. Cada vez mais o menino do maço de cigarros era seu. Enfim, quando percebeu que a situação estava fora de controle, o marinheiro se levantou: “Estou indo embora, tenho uma mulata pra cuidar. O que beberam já está pago, a partir de agora, é com vocês.”.
O menino voltou ao mesmo bar nas próximas sextas-feiras à procura do marinheiro. Às vezes sem um motivo aparente, procuramos fazer coisas pelas pessoas sem saber muito bem o porquê, apenas necessitamos – desesperadamente - cessar aquela sensação de vazio e acurar. Algumas vezes, o menino encontrava o marinheiro, trocavam goles de cerveja, meia dúzia de palavras e voltavam para suas rotinas. Outras vezes não. Mas mesmo que não soubesse, aquele menino havia sido eleito como aprendiz do marinheiro, e sem condições muito visíveis justamente pelo fato de serem completamente diferentes na forma de ser, era, exatamente essa distancia que tapava o buraco que ambos tinham na mesma profundidade.
 
 
O marinheiro que muita cautela tinha com seu barco, ensinou o menino a nele navegar. “Agora vamos para alto-mar” como se o menino tivesse tirado sua carta naquele dia e pudesse dirigir em uma rodovia movimentada. Levou o menino para comer a maravilhosa comida da mulata. Ensinou algumas das malandragens que havia aprendido com a vida e permitiu, mesmo que parecesse restritamente, que ele participasse dela.
Alguns anos se passaram, o menino era um completo marujo e não apenas pela força física que havia desenvolvido, mas ele parecia não se vangloriar. Nunca se sabe a proporção da força que se tem até o momento que é necessário usá-la. O marinheiro adoeceu, e morreu numa sexta-feira feito passarinho. O céu ainda era rasgado por andorinhas, as mulheres limpavam o pescado para o cozimento do proprio almoço, alguns homens jogavam a rede no mar, e as crianças continuavam suas rotinas com as brincadeiras de sempre, mas o marinheiro não estava mais ali. A singularidade de cada momento necessita ser entendida, a vida aparece como um botão de flor único. Pode ser o mesmo ramo volte a florescer duas ou três vezes mais, mas nunca será o mesmo botão, refletiu o menino.
 
Naquela sexta-feira, o rapaz teve certeza de que as sextas nunca mais seriam as mesmas, e se lembrou da exata sexta-feira em que derrubou o maço de cigarros que possibilitou que visse os pés do marinheiro. E agora, após conhecer muito bem a singularidade daqueles pés, os via outra vez, de maneira completamente diferente. Sabia que naquele momento tudo era diferentemente triste, seria a última vez e por esse mesmo motivo os amou como se fosse a primeira além de única.
 
À memória do marinheiro Eurípedes, e ao marujo Breno.
 
 
Isabel Fogaça, 4º ano  História/Unesp

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