De primeiro

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, as crianças contribuíam decisivamente para o orçamento familiar. O retrato da minha família, pendurado na parede da memória, é relíquia em preto e branco e fixa imagem corriqueira e banal de um tempo que me parece ontem.
 
Aos treze anos de idade, quando alcancei o diploma do quarto ano primário, lá no Grupo Escolar Barão da Franca, já tinha trabalhado em bar-restaurante-padaria, em farmácia, em cantina de cinema, em marcenaria, em venda de revista, de casa em casa, em entrega de jornais, em barbearia, engraxando sapato... Já trabalhara em Parque de Diversões, quando algum se demorava lá na beirada da linha férrea, no espaço vazio que se tornaria a atual Praça Barão de Luca.
 
A última vez que trabalhei em parque, já próximo dos treze anos, fizeram-me o responsável pela barraquinha das argolas e me ensinaram a tapear os incautos.
 
A barraca funcionava assim: havia um estrado eqüidistante de grades de madeira; as pessoas se debruçavam nas grades e arremessavam argolas, compradas de cinco em cinco. Sobre o estrado, havia uma quantidade grande de alvos tocos de madeira, aparentemente idênticos, sobre os quais eram colocados os prêmios a que faziam jus os acertadores: um maço de cigarro, uma barra de chocolate, uma garrafa de guaraná, uma garrafa de aguardente ou de cerveja, um par de brincos, um anel, uma correntinha, uma bijuteria qualquer. Ganhava-se o prêmio quando a argola se acomodava em torno do toco de madeira.
 
No centro do estrado, o prêmio que levava as pessoas a deixarem na caixa as suas economias: um reluzente relógio.
 
Os ingênuos compravam argolas, debruçavam-se sobre a grade, na ânsia de crescerem seus braços, de se aproximarem do objeto da sua ambição, arremessavam as argolas e nunca enlaçavam o toquinho sobre o qual o relógio dourado lhes sorria desdenhoso. Enquanto isso, vez ou outra, enlaçavam o suporte onde se encontrava um maço de cigarro, uma bijuteria.
 
Vira-e-mexe, alguém desconfiava de que o diâmetro da madeira era maior que o da argola. Era aí que eu tinha de ser esperto. As argolas todas eram seccionadas. Então, eu segurava a argola exatamente no corte, pressionava um pouquinho ambas as extremidades, a argola se encaixava tranquilamente no tronco de madeira. O público era iludido, acreditava que, realmente, os suportes eram idênticos.
 
A vida da meninada da Estação era, grosso modo, a mesma. Variavam, tão somente, as respectivas atividades, porém todos esperavam ansiosos a chegada dos quatorze anos, quando poderiam ser admitidos numa fábrica de sapatos, destino da quase totalidade das crianças da periferia.
 
Em meu primeiro emprego, no bar-restaurante-padaria, entrava às cinco e meia, saía às treze horas, corria até nossa casa, pegava o caderno, o lápis, a cartilha (não podia esquecer a borracha), corria para o Barão da Franca, que ficava pertinho. Às vezes, levava lambadas de vara de marmelo nas pernas porque não me concentrava, porque, tal como hoje, nem sempre lia corretamente.
 
Todo dia, eu levava um pão-d’água para casa. Ao final do mês, o pai ia lá no meu emprego, pagava a diferença.
 
E falava, orgulhoso, do filho que era trabalhador, que estava estudando, que ia virar doutor. E falava da filha mais velha que já trabalhava em casa de família, como doméstica, que, “se Deus quiser, vai arranjar um casamento bom”.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 
 

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