Um olhar amoroso sobre nossa cidade

Por: Sônia Machiavelli

Conhecimento que não é partilhado mostra-se inútil. Fica restrito àquele que o detém e, humano, mortal e finito, levará consigo para o túmulo o saber acumulado. Mas conhecimento repartido multiplica-se, expande-se e amplia visões de mundo. Não perece, contribui para que a vida ao redor frutifique. 
 
Acho que isso acontece também com imagens que traduzem o coletivo. Se compartilhadas, elas podem levar a reflexões desdobráveis, com acréscimos significativos. Quem olha acrescenta ao que vê novas informações sobre o tempo e o espaço, oriundas de suas experiências e maneiras singulares de sentir. Sob este aspecto, o Apaixonados por Franca, comunidade atuante na Internet, vem cumprindo papel importante de disseminação de fotos e fatos, seja quando exibe o presente de uma cidade em crescimento constante, seja quando resgata o passado que a explica mas corre o risco de desaparecer da lembrança da gente francana se não for trazido à tona. 
 
Em dois anos, o grupo criado por Daniel Radaelli, e co-administrado por pessoas que também veem o espaço urbano com sentimento amoroso, transformou-se em movimento a favor da cidade. Já recuperou parte expressiva da memória de uma Franca desconhecida para os contemporâneos ou apenas relembrada de maneira vaga pelos mais velhos. Vai assumindo assim uma função que competiria ao poder público, qual seja, a de pesquisar, buscar, recolher, preservar imagens e delas cuidar por sua importância histórica. Memória é identidade e um povo que não retém a primeira, pode-se ver subtraído na segunda em relação a um patrimônio que lhe diz respeito e o faz entender em que medida é parte de um todo.
 
Vivemos numa cidade bonita, de bom clima, conhecida no país por suas fábricas, serviços, polo universitário, gente trabalhadora, artistas. Não somos um oásis de bem-aventuranças, um modelo de urbe bem cuidada em todos os seus segmentos, haja vista recentes imagens ruins, resultantes de problemas administrativos graves, divulgadas em nível nacional pela rede Globo. Mas temos muitas coisas de que nos orgulhar, construídas em grande parte por gerações de anônimos que ajudaram com seu trabalho a transformar a vila na cidade que hoje ostenta mais de 300 mil habitantes. Um olhar realista é imprescindível para que a ilusão não seja maior que a vontade de solucionar problemas; mas um nível de otimismo sobre o lugar que escolhemos para viver, onde ganhamos a vida, constituímos família e criamos os filhos, é importante para manter acesa a chama da esperança. Acredito que todos, ou quase todos, que aqui moramos, queremos contribuir como seres sociais para que este espaço se torne cada vez mais progressista e acolhedor. 
 
Como são mais as paixões que os interesses que conduzem o mundo, no dizer de um ensaísta do século passado, os internautas que amam sua cidade e a cada dia a desvelam sob novos ângulos no Face Book, têm conseguido a proeza de contagiar número cada vez maior de adesões a um projeto que é simples e belo: mostrar a cidade do presente, fixando paisagens físicas que são também emocionais; resgatar imagens de pessoas que aqui viveram e contribuíram para a formação do que hoje somos; mobilizar com passeios em grupo os melhores sentimentos em relação ao espaço urbano de todos, internautas ou não, que amam a cidade e almejam para ela o melhor.
 
Tendo alcançado 23 mil participantes, o Apaixonados por Franca ganhou data para ser oficialmente celebrado, o sete de abril. Foi assim que, na última segunda-feira, em evento que lotou o auditório da Câmara Municipal, fez-se um retrospecto de nossa história mais recente com o casal de atores que representou os Barões da Franca; homenagearam-se pessoas, com ou sem acesso à web, vinculadas à comunidade por décadas de trabalho; cantaram-se, com o hino nacional e o da cidade, este com letra de Alfredo Palermo e música de Waldemar Roberto, duas outras canções que falam de perto ao coração francano: Terra dos meus sonhos, de Agnelo Morato; e Conjugando Franca, de Paulo Gimenes. Passado e presente reunidos integraram tempos e sentidos, inspirando nos que ali se encontravam forte sentimento de pertencimento à terra francana.
 
Espera-se que este dia instituído por decreto possa ser comemorado nos anos vindouros com o mesmo entusiasmo que hoje nitidamente se observa e reflete o desejo de mobilizar a alma dos francanos nas melhores direções, que são as do bem e do belo. De uma coisa não se duvide: apenas as pessoas apaixonadas podem erguer obras duráveis e férteis.
 
 
Sônia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora
 

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