Reminiscências

Por: Everton de Paula

Outro dia, para distrair meu neto, comecei a fazer uma bola de elásticos. Uma pessoa habilidosa é capaz de fazer uma bola do tamanho da de tênis, e com alta capacidade de pular. Está certo que quando eu era criança, não havia elásticos, Fazíamos bolas de meias velhas, já cerzidas o suficiente para se jogá-las fora. Com enchimento de serragem, íamos encapando com meias aquela esfera que seria nosso artefato principal para as peladas de rua. Mas não é este o ponto. Digo que me peguei, dias atrás, fazendo uma bola de elástico.
 
Acontece  que eu não realizava esta pequena façanha desde os meus dez anos de idade. Como foi agradável e interessante reviver a arte da infância; notar que meus dedos estavam cheios de recordações; sentir de novo aquela mesma formação de uma pelota, sólida, satisfatória, inalterada, por assim dizer, no curso de mais de cinquenta anos; jogar de novo, na memória, os passes, os dribles na rua poeirenta da Praça João Mendes, ouvir de novo o pedido do colega – “passa, passa logo a bola” -, ou ainda “chuta, vai pro gol!” Agora, o vulgar brinquedo proporcionava-me gratuitamente, e sem esforço, uma parcela de vida extraordinária, porque a recordação não é menos viva que a experiência.
 
E meu netinho ali, firme, aqueles olhos brilhantes, tão amados, fixos nas mãos do avô e no artefato construído.
 
Talvez devêssemos dedicar conscientemente alguns minutos de cada dia a esses exercícios de evocação. Eles podem ser incluídos entre os mais confortadores dos pequenos prazeres da vida; e os que se obstinam na contemplação do presente perdem-nos por completo. Esses desafortunados, que talvez possuam grandes fundos bancários, esqueceram completamente os fundos bancários da memória; e assim, no seu esquecimento, privam-se de riquezas.
 
E, DE REPENTE, 64
Embora o número aí de cima possa sugerir um assunto da pauta dos dias de hoje na mídia impressa, televisiva e virtual, dado o cinquentenário da Revolução de 1964 no Brasil, ele se refere a outro significado muito distinto: hoje, exatamente hoje, dia 12 de abril, completo 64 anos de idade, coincidentemente com o aniversário de minha esposa, 12 de abril, também, só que não ouso colocar aqui sua idade, embora ela seja muito mais nova que eu. Sabem como é, todo professor acaba se casando com uma sua aluna ou prima, não sei bem o porquê, e aí ocorre uma diferença considerável de idade.
 
Muito bem, 64 anos e nada continua igual. A teoria da relatividade não é mais potente que a teoria da idade, que a tudo faz cair. Às vezes vem algum engraçadinho e diz: “Ora, você está se queixando à toa: não se esqueça de que você nasceu careca e banguela. Se hoje você conserva ainda alguns dentes e um e outro fio de cabelo, já é lucro!”
 
Ai, como é difícil manter-se educado! Ouvir uma dessas, calar, sorrir e depois soltar uma frase parente do “Parece que hoje vai chover!”
 
Quantos coleguinhas iam aos meus aniversários de 10, 11, 12 anos de idade. A mesa era arrumada com uma fileira de pratinhos com guloseimas na beirada, e na cabeceira principal, o bolo recheado e coberto com coco ralado.
 
Os presentes é que não agradavam muito, mas era costume da época. Veja só se não dá tristeza ganhar de aniversário um par de meias, um lenço, um sabonete Lifebuoy, um espelhinho de bolso... Difícil mesmo era ganhar algo de valor para as nossas aventuras de fundo de quintal: um canivete, por exemplo.
 
Hoje os presentes são outros e o número de convidados diminuiu consideravelmente. O par de meias foi substituído por um forte abraço; o sabonete por um desejo de vida longa; o lenço por um tapinha na barriga, e assim vai... No final, mãos abanando, cheias de nada, mas o coração ainda vibrando de alegria porque o aniversário, em qualquer idade, consegue reunir os mais queridos em torno de você: as filhas, por exemplo,  os genros, os netos, ao lado da esposa tão jovial.
 
Enfim os 64! 
 
A sentença é velha e bastante conhecida, mas profundamente verdadeira: imagino-me com 20 anos de idade  e com a experiência de hoje! Seria um tufão, um tornado, uma turbina incansável. Mas a natureza vem e desmancha a ordem dos nossos ideais e sonhos. Retornamos ao presente, ao momento presente e, retornando a todos os aniversários passados, parece-me que esse de hoje talvez seja o mais importante, porque os de antes não conseguiam pontuar no meu ranking pessoal a lista de tantas ações realizadas, tombos mas muitos conquistas, a família em volta e, é claro, os amigos que se lembraram e me telefonaram ou enviaram um gentil e-mail
 
Acho que vou dizer a mesma coisa aos 65, aos 66, aos 70. 
 
O duro é quando, nessas ocasiões, alguém chega até você e, sem fazer referência a idade ou coisa alguma, diz de uma forma  direta que soa cinismo: “Ora, ora, o que importa é a saúde, não é mesmo?”
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 

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