A família como valor em si

Por: Maria Luiza Salomão

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Em geral, a família vive em um mesmo espaço. A família contemporânea, constituída de vários casamentos e filhos de diferentes casamentos, se organiza em arranjos variados, com padrastos e mães, pais e madrastas e meio-irmãos, em uma babel de afetos, convivendo em um mesmo espaço, ou dispersa em vários tetos. Resulta uma algaravia, muitas vezes.
 
Poucos rituais favorecem o tempo na família contemporânea: uma refeição todos juntos; uma reunião (sem televisão no meio) em que um possa ouvir e olhar o outro, conversar (velha arte); ou a execução de um trabalho comum, abraçado por todos. Acontecimentos raros. A família, hoje, parece ter mudado até sua arquitetura funcional - núcleo triangular, o par de dois gêneros, masculino e feminino, pai e mãe, e filhos. 
 
O que podemos observar é que a família está configurada diferentemente. As crianças estão ocupadas a maior parte do dia. Os pais em jornadas longuíssimas de trabalho. Estou me referindo às famílias que podem oferecer um teto, uma escola, algum tipo de atividade para os filhos, já que outras, mais desfavorecidas sempre tiveram que lidar com problemas de sobrevivência. Há algumas décadas falávamos, educadores e os da área de Psicologia, na ausência do pai na configuração familiar. Mas, ontem mesmo vi uma manchete em que babás de crianças falam da ausência de ambos os pais. Essa é uma conversa espinhosa. 
 
Mas, no filme, ainda temos uma família quase tradicional, embora disfuncional, na definição dos diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris (casados, na vida e no trabalho). 
 
A família Hoover, de Pequena Miss Sunshine vive em Albuquerque, New Mexico. Richard, o pai de família, está tentando ser um coach: quer editar um livro de autoajuda  como transformar alguém em um vencedor na vida - mas não com-vence nem o seu editor. É um pai lutador, sonhador, e quer dar suporte ao sonho de Olive, criança, de ser uma Miss; assim como admira Dwayne (filho do primeiro casamento de Sheryl), adolescente, que se esforça em disciplinar corpo-mente para ser um aviador, através de exercícios e leitura de Nietsche.
 
A mãe de Olive e Dwayne, Sheryl, preza a honestidade, mas fuma e mente para o marido. Ela tenta articular a família. Seduz Dwayne com o curso de piloto, que ele tanto quer para que ele concorde em viajar para Califórnia, onde terá o concurso Pequena Miss Sunshine. Sheryl se sente responsável pelo irmão Frank, que tentara o suicídio. Frank vai morar com a família, provisoriamente, por exigir uma vigilância constante. O pai de Richard, Edwin, expulso do asilo por ser viciado em heroína, reclama da comida e de tudo, mas é amoroso com Olive, a neta de 7 anos. É o avô Edwin quem ensaia Olive para o concurso de beleza. Enfim, todos terão que viajar, gostando ou não, para apoiar Olive.
 
Viajam por três dias, na Kombi muito usada, com problemas mecânicos, mais de 1000 km. Os diretores queriam personagens com os quais nos identificássemos e nós vamos juntos nessa Kombi amarela, assistindo aos grandes sonhos e limitações de todos. Muita coisa acontece no percurso, mas chegando ao local do concurso, a família se escandaliza com as crianças-Barbies, sexualizadas, quase pornográficas. 
 
Diz a dupla de diretores que nos EUA a cultura reza que: “se você trabalhar duro e seguir as regras, você terá uma recompensa”. Não parece ser o futuro dos seis personagens: os seus destinos se assemelham aos da Kombi amarela, que pega no tranco na terceira marcha, e buzina destrambelhada, sem comando. 
 
Frank é o estrangeiro de olhos críticos julgadores que se opõe a Richard, em um papel central: ele se transforma de excluído da dinâmica familiar, suicida (loser) passa a membro animado, participante. O diálogo Dwayne-Frank, pouco tempo antes da apresentação de Olive no concurso de beleza, resume a essência do filme. Deixo aqui destacado, para que cuidem de assistir ao filme, e conversamos depois...
 
Para os Hoover, a família se torna o valor em si. Vencedor é aquele que alcança sucesso a qualquer preço? Ou o que se submete a autoridades, não importando se éticas ou sábias? O vencedor é o que desconhece a sua trajetória e a sua história? 
 
“Cada um no seu quadrado”, aforismo narcísico, é o que revelam as cenas iniciais da família Hoover. A Kombi amarela, ao final, é emblemática da transformação de todos, o continente criado pela família, o “todos por um”. 
 
Família é uma rede social protetora para as experiências emocionais dos seus membros - aquelas dolorosas e as prazerosas. Rede vital, por ser compartilhada.
 
 
DIRETORES
 
JONATHAN DAYTON E VALERIE FARIS. 
 
O filme tem dois diretores, casados na vida real, um time. Realizaram juntos: vídeos musicais (Oasis, Red Hot Chilli Peppers, R.E.M.), documentários, comerciais e filmes; e, em 2012, o filme Ruby Sparks. Em entrevista encantadora, os dois diretores declararam que eles se revezam, na habilidade de dirigir cenas específicas, cochicham entre si enquanto filmam, mas só um deles vai conversar com o ator, ou atores, em cena. A música, essencial, foi garimpada: Till the end of time, de Votchka. 
 
Pequena Miss Sunshine levou cinco anos de filmagem, com problemas de orçamento. Os diretores lutaram para manter o roteirista, que levou o Oscar de Melhor Roteiro Original, Michael Arndt. Também Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Allan Arkin (Edwin, avô de Olive, a garotinha). Estreou no Sundance de Cinema, 2006. A Fox Searchlight comprou os direitos de distribuição, acordo de valor recorde para o Festival, e o lançou nos EUA, meses depois. Faturou cem milhões de dólares em bilheteria, e muitos prêmios, surpreendendo quem não os apoiou no início do projeto. 
 
Chocante é a cena no concurso Pequena Miss Sunshine, de crianças maquiadas, cabelos exóticos, requebrando, dançando feito adultas. Dão o que pensar: o que esperam as mães das “bonequinhas de luxo”? O sonho é de quem? 
 
Em 1996, uma criança de seis anos, que vencera o concurso Miss Elite Pageant para candidatas entre 2 e 18 anos, foi estuprada, o que levou a organização do concurso a repensar a exibição de crianças sexualizadas, as Barbies adultas. Um bom ponto para conversarmos. (MLS)
 
 
FILME 
 
Filme: Pequena Miss Sunshine 
Duração: 1h40min  
Onde: Centro Médico, sede campestre 
Horário : 15 horas 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

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