“Papai matou uma assombração!”

Por: Paulo Rubens Gimenes

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Dizem que o fato se deu lá pelas bandas do Chora Menino. Verdadeiro, acontecido.
 
Assim como dezembro é tempo de manga, quaresma é tempo de assombração e isso enchia de medo Diquim e Subaco, dois moleques levados que moravam com os pais numa rocinha bem afastada da vila.
 
O temor até que “raleava” durante o dia, mas quando chegava a noite e a escuridão engolia a fraca claridade do lampião solitário na cozinha da casa, as “ideia ruim” pairavam sobre a cabeça dos meninos fantasmas, almas penadas, o pemba, mula sem cabeça, assombração; enfim, toda uma legião de seres de outro mundo.
 
Então, numa noite o dia chegou. Já deitados no quartinho ao lado da despensa, reza pronunciada, Diquin e Subaco preparam-se pra dormir. De repente, um barulho estranho vem lá do quintal - uma grande área descampada com alguns pés de mandioca, terreiro pras galinhas, uma mangueira, a casinha da fossa, um varal apoiado por um bambu e muitas moitas de capim gordura.
 
- Diquin, o que é isso? amedrontado, Subaco pergunta ao irmão mais velho.
 
- Sei não, num quero nem sabê. 
 
- Vai lá, espia pela greta da janela. 
 
- Ce besta, sô! Vai ocê.
 
Paralisados de medo, os dois irmãos ficam escutando o barulho persistente, parecia que alguém ou algo andava pelo quintal.
 
- Pai! gritou Dikin  tem alguém no quintal.
 
- Ora, deixa de bobagem moleque, vai dormi se não leva uma sova. sonolento, resmungou o pai no quarto ao lado.
 
Dormir como? O barulho continuava e a imaginação voava cada vez mais longe. Algum “coisa ruim” tava chafurdando pelo quintal. Diquin tomou coragem, ajoelhou-se sobre a cama e mirou um medroso olhar pela fresta da janela.
 
- Credo em cruz, ave-maria, o bicho tá lá sussurrou apavorado para o irmão.
 
Subaco arrepiou-se todo e cobriu-se até a cabeça.
 
- O que? O que tá lá Diquin?
 
Sob as sombras da manqueira, bem pertinho da cisterna, um vulto branco flutuava emitindo um som estranho, vindo dos “inferno” MUUUUUUU!
 
Apavorado, gaguejando, Diquin descrevia a cena ao irmão, com muito esforço gritou:
 
- Pai! Tem uma assombração lá no quintal!
 
A choradeira dos meninos acordou a mãe e o pai que saiu resmungando:
 
- Ah molecada, hoje ocês apanha é com vara de marmelo.
 
Entrando no quarto, o pai depara-se com um filho encoberto até a cabeça e outro paralisado, olhando pela fresta da janela.
 
- Deixa de besteira, esbravejou, empurrando o filho, deixa eu vê!
 
Os olhos do pai mal acreditaram no que viram, aquele vulto branco, chacoalhando, flutuando na escuridão, aquele barulho sinistro MUUUUUUU. Certeza! Era fantasma.
 
- Muié! Gruda na reza que é fantasma e dos grande!
 
Ave-maria, Pai Nosso, Salve Rainha e todo o estoque de reza era clamado em voz baixa enquanto o pai carregava a cartucheira de “papo amarelo” que a briga ia ser boa.
 
Morrendo de medo, mas tendo que defender a família, o pai enfia o cano pela fresta da janela e grita:
 
- “Sai daqui coisa ruim, que aqui é casa de cristão”.
 
Alheia ao apelo, a criatura continuava lá, balançando, avoando baixinho sobre o chão e vez em quando soltando sua voz para assustar MUUUUUU.
 
O pai não teve dúvida, mirou no meio da criatura e disparou, o ser soltou um berro descomunal e prostrou-se no chão. Fecharam a janela e passaram o resto da noite orando aos céus por proteção, afinal ninguém sabe como é o contra-ataque dessas criaturas.
 
Os primeiros raios de sol chegaram e espantaram para bem longe o breu da noite e seus perigos. O resto da família ficou dentro da casa enquanto o pai foi lá ver a cara do bicho das profundezas, já imaginando quantas histórias e fama iria campear com o acontecido.
 
Decepção. Enrolada em um lençol que estava estendido no varal e que engaranhando-se em seu chifre teimava em não sair, jazia estrebuchada, ”mortinha da silva”, a coitada da vaquinha Pretinha. 
 
Assim, toda a família tirou lição do acontecido. O pai, que sua espingarda era boa, mas que fama de matadô de assombração era difícil de arrebanhá; os meninos, que fantasmas não existem e a mãe, que precisava arrumar outra vaca e um outro lugar pra pôr o varal.
 
 
Paulo Rubens Gimenes, Publicitário e ex-conselheiro do Comércio da Franca

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