Plantas que falam

Por: Hélio França

Ao Rubens Claudio Hungria Cecci  ( in memoriam ) 
 
Foi  a primeira visão que tive quando tiraram-me a venda dos olhos. Dois olhos azuis tranquilos, complacentes, penetrantes e fraternos, fixos nos meus. Era  um olhar que emanava compreensão e carinho, como se eu fosse um  irmão de sangue. Em seu entorno, fui percebendo outras dezenas de olhares à medida que voltava o rosto para os demais presentes. Como aquele olhar azul, os outros também emanavam afeto, paz e alegria. Meu coração era um transbordamento entre surpresa e harmonia. Soubera anteriormente que a cerimônia de iniciação maçônica seria um dia para nunca mais ser esquecido, e assim o foi. 
 
Passados alguns meses de agradável convivência e contínuo aprendizado junto à ordem, estávamos certa noite em um jantar festivo quando aquele senhor de olhos azuis, nosso Venerável Mestre, sentado a meu lado, passou-me um vidro de pimenta miudinha e vermelha e perguntou se eu a conhecia, dizendo em seguida tratar-se da “mini-cumari”, de grãos tão pequeos quanto ardidos  e de um sabor indescritível. Experimentei-a e fiquei surpreso com a qualidade. Perguntei onde eu poderia encontrá-la e ele não soube responder. Mas disse que possuía um único pé, na horta de sua residência. Após aquele jantar nunca mais conversamos sobre a tal pimentinha saborosa. 
 
Passaram-se cerca de três meses e eu já nem recordava desse episódio, quando, chegando à Loja para mais uma reunião, eis que, para minha agradável surpresa, lá num cantinho sobre uma mesa, pequenina, verdinha, dentro de um saquinho plástico, estava uma mudinha da minipimenta 
 
__ É sua, ele disse. E acrescentou dizendo que um passarinho tinha ajudado a fazer o plantio perto do pé que tinha em sua horta. 
 
Agradeci comovido, já que eu nem tinha lhe feito qualquer pedido. E arrematei dizendo que iria plantá-la com o maior carinho. Assim foi feito. Dois meses depois lá estava em minha chácara o pé verdinho, bem adubado, com cerca de oitenta centímetros de altura, e, para minha alegria, começando a produzir as deliciosas pimentinhas. 
 
Por volta de janeiro deste ano ficamos sabendo que nosso Venerável Mestre estava tendo alguns problemas de saúde. Tratava-se de uma doença ainda não diagnosticada que vinha paralisando a musculatura de um lado do corpo. Afastado da Loja para tratamento, ficamos sem a sua presença por cerca de dois meses, tempo este que coincidiu com o tom amarelo ferruginoso das folhas da minha pimenteira. Ela foi ficando com as pontas ressecadas, parou de produzir e por mais que eu a adubasse e molhasse não apresentava recuperação. Foi definhando, assim como o nosso irmão Rubens, talvez querendo misteriosa e simbolicamente comunicar que algo estava errado. Particularmente, não creio em mensagens do além ou paranormalidades vegetais, se assim preferirem, mas algo em meu coração me diz que aquela muda de pimenta, tal o amor e carinho que ele tinha pelas plantas e com que me foi ofertada, não suportou o que o destino reservou ao nosso amado irmão. Coincidência ou não, além da seiva, naquele arbusto, tenho certeza, fluem outros líquidos, compreendendo generosidade, esperança e fraternidade. Por isso podei radicalmente os ramos secos e doentes da pimenteira, pois do mesmo modo que ela, em dois meses, definhou absorvendo o sofrimento do nosso amado irmão, quero vê-la ressurgir com nova roupagem a cada dia, observando no esplendor de suas folhas uma mensagem de vida, e a certeza de que o céu fundiu-se num azul  mais azul ainda, sob o olhar tranquilo e bondoso de Rubens Claudio Hungria Cecci ! 
 
 
Hélio França, engenheiro e membro da Academia Francana de Letras
 

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