De primeiro (3)

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, Franca era a soma de duas metades: à esquerda do Córrego dos Bagres, ficava a Cidade; à direita,  a Estação. Assim, a enorme (para os recém-chegados) população de trinta mil habitantes estava dividida ao meio por um pequeno riacho, e as duas bandas ligadas por uma única ponte de concreto, localizada na Rua da Estação.
 
As casas comerciais importantes, as residências da maioria dos fazendeiros e comerciantes, o Campo da Francana, o cemitério, a Santa Casa, as fábricas de calçados, o Colégio Champagnat, o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, a igreja Matriz, os consultórios médicos e dentários, a AEC, os bancos,tudo isso ficava na Cidade.  Na outra parte ficavam as residências da gente humilde, com suas casas simples, de quintais enormes, suas padarias, suas cadernetas de vendas fiadas.
 
Pejorativamente, os moradores da Estação eram chamados de índios.
 
O complexo de inferioridade da meninada diminuiu quando o dentista Doutor Amélio Calixto inaugurou, lá na Rua Frei Germano, o Cine Santo Antônio, quase defronte ao bebedouro para animais, que ficava próximo aos trilhos da linha férrea da Companhia Mogiana.
 
Na estreia do cinema, foi exibida a fita Scaramouche, estrelada por Stuart Granger. O filme ficou em cartaz por toda uma semana e assisti a todas as sessões, porque meu pai me arranjara emprego na Bombonieri,  que ficava dentro do cinema, e onde eu vendia balas. Além de fazer florescer a nossa autoestima, o cinema levou para a criançada da Estação um mundo encantado de matinês, onde convivíamos com Tarzan, com a Jane, com a Chita, com Durango Kid, com Flash Gordon, com heróis que nunca mais se ausentaram de nosso imaginário. Os seriados do cinema empurraram muitas crianças de então para os gibis, para as revistas em quadrinhos e, mais tarde, para os livros.
 
Até hoje gosto de cinema, até hoje meu coração menino torce pelo mocinho. Mas o herói a quem minha lembrança rende preito maior não empunhava espada, nem sacava revólveres, nem voava nos céus. Era simples concessionário da cantina. Chamava-se Nenê Lourenço e era pai do Célio Lourenço.
 
Um dia, ele surpreendeu o empregado metendo balas e pequenas moedas no bolso. Depois do expediente, levou o menino para um cômodo, pediu as balas, pediu as moedas. Serenamente recitou  sermão, deu conselhos, disse que era para voltar no dia seguinte e que nada contaria ao pai do garoto.
 
Anos depois, soube que fora assassinado lá em Ribeirão Corrente, cidade que o homenageou, dando seu nome a uma de suas escolas.Morreu novo.
 
Mas já cumprira sua missão.
 
Nunca mais roubei na vida.
 
Assim, como toda a meninada de então,  eu  fazia colheitas aqui e ali, pelos campos férteis da vida. As árvores eram muitas. A professora, com a vara de marmelo, ensinava a somar. O padre, com a batina preta, ensinava a dividir.
 
E os pais ensinavam que o trabalho era capanga para todos acumularmos merenda para a viagem, para as pequenas e grandes travessias que o amanhã nos reservava.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 
 

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