Evocações

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Datas comemorativas costumam evocar acontecimentos ocorridos em tempos longínquos, levando nosso pensamento a divagar, perscrutando nossa memória em busca de detalhes dos quais vamos nos esquecendo , até como mecanismo de defesa.
 
Diante de tão suntuosa lua cheia, lembrei-me, na última  Semana Santa, de que meu pai plantava alho na quinta-feira, aproveitando este indicativo lunar para fazê-lo. Quando o alho era colhido, ele fazia réstias, trançando os caules, deixando as cabeças salientes e, depois de secas, presenteava os filhos. Na sexta-feira, minha mãe preparava bacalhoada e meu pai punha-se diante do rádio, que mais parecia um móvel, para ouvir, às três horas, o Sermão das Sete Palavras, na voz tão convincente do locutor que parecia estarmos ouvindo o próprio Cristo. No sábado, minha mãe tomava um cálice de vinho do Porto e meu pai ia à igreja para a Vigília Pascal. O farto almoço do domingo de Páscoa reunia toda a família, em volta de uma mesa ornada com toalha de linho bordada à máquina, em cores e um extenso acabamento em crochê. Pratos de porcelana dourada aguardavam o mais esperado: frango recheado com farofa. Não havia chocolate e sim, para sobremesa, doce de figo, verdinho, feito em casa. Nestas reuniões festivas contávamos os fatos recentes compondo a nossa história.
 
Numa noite de Páscoa, o inesperado, uma forte dor no peito causou uma separação. Muito choro, muita tristeza, muita saudade. Nunca mais a nossa Páscoa foi a mesma. O tempo implacável empurra as lembranças para o fundo da alma, mas elas são acionadas por fatos, músicas, lugares, cheiros ou sabores, mesmo que muitos anos tenham se passado. 
 
Estas datas provocam sentimentos diversos, de euforia para alguns, para outros, nem tanto. Assim como não há Paixão sem lua cheia, por aqui não há Páscoa sem esta triste recordação.
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora
 
 

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