O arrastão dos tempos

Por: Maria Luiza Salomão

E, de repente, recebo a mensagem via facebook: encontrei uma carta, não sei se é sua letra, dentro de um livro que você me deu. Susto: eu faço isso, deixo fotos, cartões de amigos, bilhetes, folhas de árvores, recheio os livros que leio.  A amiga me diz: vou tirar uma foto dela e já mando. 
 
Mandou: era a minha letra, diferente hoje, meio inclinada e mais redondinha era, mas é minha letra. O conteúdo: um sofrimento de trinta anos atrás.  A amiga lera como poesia, e se identificou. E eu tinha a idade que a amiga tem agora...veja só. Cadinho de ternura: valeu o escrito.  
 
A amiga me trouxe a carta, amareladinho o papel, manchas de dedinhos engordurados, talvez.  Coincidentemente, ando lendo sobre a cantora Elis Regina, e a carta, a que a amiga achou, datava abril de 82. Soube da morte de Elis em um camping em Porto Seguro, 19 de janeiro de 82.  Acampava com uma amiga baiana, e, ao abrir o zíper da barraca, a triste notícia corria feito uma enxurrada de barraca a barraca. 
 
Há momentos de muita solidão na vida de todos nós. A morte de Elis me pegou em um desses momentos. Guardei o dia, o meu estado de espírito, o local em que estava no dia da sua morte. Eu a admirava como artista, não havia quem não reconhecesse a fecundidade da sua interpretação, da sua rica musicalidade.  Morreu com 36 anos, bem jovem para os nossos dias, aclamada, contínuo sucesso por duas décadas. 
 
A sua morte me calou fundo, de mulher para mulher. Não a conheci. Mas, naquele dia, então, uma mera projeção dos meus sentimentos, eu  imaginei Elis sozinha, des-amada, desarmada, em um quarto, morrendo por engano. Segundo comunicados, por overdose de cocaína e álcool. Elis disse, exata, em prévia entrevista:  “Eu sou do contra. Sou a Elis Regina do Carvalho Costa que poucas pessoas vão morrer conhecendo”.  
 
Acho que todo mundo pode dizer isso: poucas pessoas irão morrer conhecendo quem fui, quem foi, quem fomos.  Podem falar o que quiserem de quem somos ou deixamos de ser. Mal a gente se conhece em uma vida inteira, como haveria quem pudesse acertar nosso eixo, fora nosotros, no torto e no direito? 
 
Tenho ouvido a produção artística de Elis Regina, editada primorosamente, uma coleção (nas bancas), com libretos que nos ajudam a acompanhar a sua trajetória.  Artista completa: Fernanda Montenegro a reconhece como grande atriz, e Björk declara que Elis entrou por caminhos que ela, cantora sensibilíssima, não teria coragem de entrar.
 
Elis não viu nascer a democracia em 85, e não ouviu gentes que defendem os anos de chumbo, hoje. Quanta coisa ela não viu, e a quantas eu sobrevivi. Recebi a minha carta de volta, como um arrastão entrando no mar sem fim...eh, eh, eh......muito peixe na rede de lembranças. 
 
Mas aquela marialuiza daquele sofrimento lá no alto mar, acho que ela morreu também.      
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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